Queens ov thee Circulating Library: May 2014

«Para o Padre Ruiz-Sanchez, biólogo, Litia é o ‘paraíso nas estrelas’. Só que…um paraíso criado pelo próprio demónio…»
James Blish em “Um Caso de Consciência”

O mês que agora finda, ao contrário daqueles que o antecederam, foi pejado de leituras. Quinze livros no espaço de trinta dias, para mim, efectivamente, é uma boa média. Algumas destas obras foram revisitadas no âmbito dos trabalhos desenvolvidos na primeira quinzena de Maio.
Eis a lista: “Métaphysique de l’imagination” de Cynthia Fleury; “La poétique de l’espace” de Gaston Bachelard; “ Imaginação Simbólica” de Gilbert Durand; “La Vie de l’espace” de Maurice Maeterlinck; Noise, “Visual Arts, and the Occult” de Luciano Chessa; “O esoterismo” de Antoine Faivre; “O Futurismo Italiano: estética, ideologia, fascismo” de Luís Bensaja dei Schirò; “Religion and the rebel” de Colin Wilson; “Viagem na Irrealidade Quotidiana” de Umberto Eco; “Artaud, l’alienation et la folie” de G. Durozoi; “L’esthétique de la cruauté” de Franco Tonneli; “Madame de Montespan e a Magia Negra” de A. Vieira D’Areia; “Révolution Electronique”de W.S. Burroughs; “A orthographia etymologica e a sónica: estudo critico por meio do qual de conhecem as vantagens da orthographia etymologica e as inconveniências da sónica” de Francisco José Monteiro Leite e ainda, “ Um caso de consciência” de James Blish.

blish1Devo dizer que desde o ano 2000 mantenho uma lista actualizada mensalmente de todas as minhas leituras. Por vezes fico espantado (ou não) pela recorrência temática. Enfim, vicissitudes intrínsecas à mundividência pessoal de cada um, acho…
Das leituras deste mês, opto por destacar, eventualmente, a mais inusitada de todas. James Blish, autor que eu já conhecia através das leituras anteriores de “Black Easter” e ainda de “Dr. Mirabilis”, é um autor com uma inesperada capacidade de introduzir temáticas espirituais (também se pode ler, herméticas ou religiosas) no universo da ficção científica. Na minha opinião, é um autor deveras surpreendente na medida em que, aliada a uma certa estetização pulp, se complementa uma outra abordagem mais “séria”, inserida na tradição do mais puro existencialismo filosófico.
Rogo-vos a gentileza de atentarem de no seguinte excerto que tive o cuidado de transcrever para vós:

«O Papa conservou-se de pé durante toda a entrevista fitando Ruiz-Sanchez com o que parecia ser nove décimos de franca curiosidade.
– Dentre todos os milhares de peregrinos que cá vieram vós podereis estar entre quem mais necessita do nosso perdão – observou em inglês. Perto, um gravador bobinava silenciosamente. Adriano era um arquivista impenitente e um fanático pelo rigor das palavras textuais. – E, no entanto, alimentamos poucas esperanças de o salvar. É incrível para nós que um jesuíta, dentre todos os nossos pastores, possa ter caído na tentação do maniqueísmo. Os erros dessa heresia são estudados, muito particularmente nesse colégio.
– Vossa Santidade, a evidência…
Adriano levantou o braço. – Não percamos tempo. Já estamos devidamente informados sobre os seus pontos de vista e raciocínios. É subtil, padre, incorreu ao mesmo tempo num grave equívoco. Mas, de momento, desejamos adiar esse assunto. Fale-nos primeiro desta criatura Egtverchi, não como um enviado do Diabo, mas como o veria caso ele fosse um homem.
Ruiz-Sanchez franziu o sobrolho. Havia algo sobre a palavra ‘enviado’ que tocou qualquer fraqueza no seu íntimo, como que uma obrigação para cumprir. O sentimento era como aquele que lhe tinha alimentado um ridículo e repetitivo pesadelo que tinha nos seus tempos de estudante, no qual ele não concluía a graduação porque se tinha esquecido de ir a todas as aulas de latim. Ainda bem que não era esse o prognóstico.
– Há muitas maneiras de o descrever, Vossa Santidade, – disse. – Ele é uma espécie de personalidade que o crítico do século XX, Colin Wilson, chamava de ‘marginal’ (outsider) e é essa espécie de homem da Terra que ele seduz.»

Percebem agora a minha predilecção por este livro do James Blish, por mim eleito o livro de Maio de 2014?

Blish Case of Conscience