The Occult Observer: “acerca d’Observador, do “Palito” e ainda, do cidadão Mário Soares”

«Ils sont fous, ces Portugais!»

René Goscinny em “Texto inédito (e ainda por descobrir), no qual são relatadas as épicas aventuras de Astérix e Obélix num Sítio Muito Mal Frequentado”

Nesta semana, que agora finda, passaram-se algumas “coisas” assaz curiosas que me levaram a  tecer algumas reflexões que gostaria de partilhar convosco.

 I

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Observador, terça-feira, 20 Maio 2014.

A imprensa nacional conta com mais um pasquim (perdão, jornal digital), de seu nome Observador. Os responsáveis editoriais cumpriram o que prometeram, ou seja, deram início à sua actividade antes do final do primeiro semestre deste ano. Devo fazer aqui um aparte e confessar que, durante algumas semanas (à semelhança de muitos, presumo), nutri alguma curiosidade acerca deste novo projecto editorial que se autoproclamava como portador de um audacioso espírito inovador. Cheguei mesmo a ofertar os meus serviços ao referido jornal, uma vez que, durante largas semanas, no site do Observador, chegou a existir um “pedido” de candidaturas para a função de jornalista, bem como de candidatado a jornalista. Jornalista não sou, é verdade. Ainda assim, entendi que poderia ser uma mais-valia para o departamento cultural desta publicação. Obviamente, não reunirei os requisitos desejados pela direcção da publicação, algo que, também, me parece legítimo. Aliás, a equipa escolhida parece-me ser mesmo a mais adequada para o projecto em questão. Muita gente jovem com experiência noutros projectos conceituados e muito bem-sucedidos.
Mas, tem de haver sempre um mas, não é? Mas, dizia eu, esperava muito mais deste projecto. Ou seja, a ligeireza com que as notícias são redigidas, bem como, a forma como as mesmas aparecem disponíveis, em nada suplantam outros projectos editoriais feitos com menores recursos e com um número de pessoas bem mais reduzido. (Isto é só um aparte, pois também tenho a noção de que o dogmático preceito do “user friendly”, tem de ser estritamente respeitado). Até aqui tudo bem, acho. No entanto a minha estupefacção (a mesma de muitos de vós) vai directamente para a notícia intitulada “A história de amor entre um skinhead e uma menina de Cascais”, à qual podereis aceder, AQUI.
Abstenho-me de fazer muitos comentários acerca da mesma, até porque outros bem mais credenciados do que eu já o fizeram com imensa acuidade. Mas, ainda assim, pergunto-me: será que este projecto encarna mesmo um jornal a sério, ou será que os seus mentores o quererão utilizar apenas como palco psicodramático (psicanaliticamente falando, é claro)? Ou seja, terão eles criado um novo espaço para dar “voz” a alguns traumas infantis advindos da leitura à socapa da literatura das senhoras suas mães e/ou irmãs? (Reporto o leitor menos avisado da enorme importância da publicação “Crónica Feminina” em milhares e milhares de lares nacionais, pelo menos até ao fim da década de 1970.) “Enjoy your symptom” diria o esloveno Slavoj Žižek, numa legítima apropriação da figura tutelar de Lacan.
Concluindo esta primeira reflexão, o Observador começa mal, dado que, não acrescenta nada de novo, quando comparado aos jornais ofertados gratuitamente à saída de qualquer estação de metro. Por outro lado, parece-me desleal “roubar” leitores às revistas “cor-de-rosa”, bem como, “desconcentrar” os utilizadores do Facebook.

II

peruvian apeJornal Público, sexta-feira, 23 maio 2014.

Os leitores mais incautos (como é o meu caso), terão, certamente, ficado estarrecidos com alguns dos conteúdos da notícia da página 38. A notícia intitula-se assim: “Manuel ‘Palito’ levantava-se de madrugada para perseguir a mulher”, e continua: “ O homem que esteve fugido 34 dias ficou em prisão preventiva e não falou ao juiz. À chegada foi recebido por uma multidão que o aplaudiu. A GNR fechou as ruas com um forte dispositivo e homens a cavalo”. Detectaram algo de estranho nesta notícia, excluindo o facto de os homens ainda terem necessidade de “andar a cavalo”?
Pois! É rebuscado, mas, este “cidadão” reza ainda a notícia, “…passou a perseguir a ex-mulher quase todos os dias nos últimos cinco anos, após esta ter decidido separar-se dele face a um quadro de violência doméstica. O alegado homicida de Valongo dos Azeites, que terá baleado mortalmente a ex-sogra, a tia e ferido a ex-mulher a filha de ambos, ficou em prisão preventiva. ”
Caramba, o homem para além de ser acusado (Acusado, repito. Não o estou a julgar antecipadamente) de mal tratar a esposa, e ainda, como se fosse pouco, se encontrar indiciado por ter assassinado a senhora sua sogra, ainda é aplaudido pela populaça quando entra num tribunal? Atenção, atenção senhores sociólogos catedráticos e senhores políticos. Isto dá que pensar, não dá? (Se não dá, deveria dar).
Esta é, infelizmente, uma história triste que dispensa comentários. Infelizmente, para nós, cidadão cumpridores e atentos, não ouviremos falar muito mais deste “cavalheiro” chamado Manuel “Palito”. É que o “cavalheiro”, pela fotografia, parece mesmo um espécime ilustrativo do elo perdido entre o ser humano e os seus companheiros de viagem neste planeta, os macacos. Assim, jamais terá direito a figurar nas mesmas páginas por onde já passaram o filósofo Manuel Maria Carrilho e a senhora sua ex-esposa, Barbara Guimarães, ou ainda a ex-apresentadora de programas infantis “Floribela”. Como diria Boris Vian “Morte aos Feios”, é efectivamente, uma das máximas da imprensa cor-de-rosa.
Na página seguinte da mesma publicação, obviamente, podemos ler a reportagem de Sofia Cristino, intitulada “ Manuel Baltazar veio a casa para se entregar”. Pois, ao que parece, a população ajudou um fugitivo à justiça (ah, bons velhos tempos medievais), mas isso não é da nossa conta, certo? Afinal, este “cavalheiro” apenas terá morto a senhora sua sogra por andar com os “azeites”. Pois, isso explica muita coisa. Mas, outra coisa é certa, este “cavalheiro” não foi capturado. Entregou-se. E entregou-se, na minha opinião, por uma questão muito básica. De acordo com as hierarquias de necessidades de Maslow, algumas das carências de nível mais elementar encontravam-se por satisfazer, acarretando ao indivíduo um grande dispêndio de energia e ansiedade. Nessas necessidades de índole fisiológica incluem-se a fome, a sede, o sono e o abrigo, por exemplo. Creio que o “cavalheiro” apenas se terá entregado para poder dormir num sítio quentinho em que lhe são servidas cinco refeições por dia. Mas “isso”, sou eu, a pensar alto…
Assim, pergunto aos senhores do Ministério da Administração Interna deste sítio, o seguinte: Num país a sério, tudo o que atrás foi descrito e divulgado enquanto notícia, seria merecedor de um apurado inquérito, onde, eventualmente, seriam analisadas as diligências efectuadas por parte das “forças da ordem” relativamente à captura do indivíduo em questão, bem como analisada, seria ainda, a apregoada protecção da população local relativamente a um fugitivo, não?
Fica aqui a minha pergunta, para memória futura.

III

l-manta_009Jornal Público, sexta-feira, 23 maio 2014.

Na última página, ao lado da crónica de Vasco Pulido Valente, podia-se ler a “Opinião” de Mário Soares, em que o mesmo afirma “ O PS sempre esteve acima de mim próprio”. Na verdade, eu não sei bem do que é este senhor está a falar. Sei que ataca a Direita, que diz abominar e, simultaneamente enaltece o papel da sua própria fundação, onde homenageia todos os dirigentes do partido já falecidos, ainda que, muitos dos quais, tenham sido críticos a seu respeito.
Pois, bem. Eu nunca dei grande crédito ao senhor Mário Soares. Entendo que o nível de mediocridade geral, a baixa consciência cívica, bem como os baixos padrões éticos e morais, pelos quais se rege, latu sensu, a sociedade portuguesa se ficam a dever ao papel desempenhado ao longo de décadas por políticos da mesma craveira. E aqui englobo a Esquerda, O Centro e a Direita. Tenho ainda na memória a alegria evidenciada por este senhor na apresentação pública da tese de mestrado (vertida para livro) de José Sócrates. (O facto deste “livro” contar com prefácio de Lula da Silva já diz muito sobre a “qualidade” do mesmo. Mas, mais inaudito, é conter um posfácio da autoria de Eduardo Lourenço. Tal “façanha” fez com que eu tivesse perdido a vontade de escutar o ilustre pensador, numa conferência realizada bem recentemente na Fundação de Serralves).
O que eu quero dizer é que não dou credibilidade a alguém que aparece ao lado de José Sócrates, uma vez que, este político é a imagem da mediocridade de um país que o senhor Mário Soares ajudou a criar. Sócrates não é Willy Brandt nem sequer François Mitterrand, é certo. Portanto, Senhor Soares,entendo que lhe fica muito mal “aparelhar” com tal indivíduo. Mas, infelizmente, também sei, que, no seu rol de amigos se contam nomes de déspotas como o já falecido Mobutu Sese Seko. Daí, também, eu não estranhar que empregue palavras como “abominar”, já que essas são palavras normalmente encontradas no léxico utilizado por políticos intolerantes.
O senhor Mário Soares completará, no próximo mês de Dezembro, 90 anos de idade. Pelo que, na minha opinião, faz muito bem em dedicar-se à escrita e continuar a preparar e a escrever dois livros, tal como afirma no seu “textinho”. Pela minha parte, cidadão nascido e criado num país por si construído, não lhe reconheço qualquer tipo de legitimidade para andar a dar “recadinhos” ao país. O seu legado para este país resume-se a uma única palavra, MEDIOCRIDADE. Pela minha parte, não volto a comprar o jornal Público.

Agora, pensai!