“Horas de Matar”

(…) Art as radar acts as an ‘early alarm system,’ as it were, enabling us to discover social and psychic targets in lots of time to prepare to cope with them. This concept of the arts as prophetic contrasts with the popular idea of them as mere self-expression. If an art is an ‘early warning system,’ to use the phrase from World War II, when radar was new, art has the utmost relevance not only to media study but to the development of media controls. (…)
McLuhan, Marshall. “Understanding Media: The Extensions of Man”. New York: McGraw-Hill, 1964.

(…) Nos finais do passado século XX, os bracarenses Mão Morta informaram-nos que “Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável!” De quem será, então, a culpa? (…)
Júlio Mendes Rodrigo em “Cavitas Oris Dentata” (texto inédito)

Stance-depiction-Fairbairn-and-Sykes1No texto inédito, acima citado, redigido em Fevereiro deste ano, rendo homenagem de forma mais ou menos explícita, é certo, aquela que considero como a banda mais inquieta deste sítio muito mal frequentado que, efectivamente, não é um país. Refiro-me aos Mão Morta, evidentemente.
Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável! Parece-me óbvio. Mas e a culpa, então, de quem é? Na verdade, eu acho que é de todos os que habitam neste território tão perifericamente europeu. Mas, passemos ao que interessa. O caos e a incompetência (aliada a uma banalização do mal, na acepção da Hannah Arendt e do Arno Gruen) reinam de forma ignobilmente impune (e condescendentemente tolerada pela União Europeia. “Eles são Latinos, logo que se entendam!”, dizem “eles” na burocraticamente brumosa Bruxelas), tanto mais que é legitimada pelos eleitores portugueses. No meu entender é, então, chegada a hora de “arrumar a casa”, se tal ainda for possível, é claro. E os Mão Morta, através do vídeo “Horas de Matar”, o primeiro single do álbum “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar”, na minha opinião, dão-nos a fórmula correcta através do recurso à figura do homem comum (obviamente também pode ser uma mulher, que se “passe da cabeça”).
De acordo com o psicanalista suíço Carl-Gustav Jung, os artistas são verdadeiras “antenas” vivas da sociedade, pelo que, de forma quase oracular, atrevo-me a acrescentar, captam antes de todos os outros, os aspectos inconscientes do Colectivo. Mas façamos aqui uma distinção, nem todos são “artistas” na verdadeira acepção do termo. Passo-me a explicar: não posso colocar no mesmo patamar Adolfo Luxúria Canibal com Pedro Abrunhosa, aquele que em tempos, e quando ainda tinha “direito de antena”, apenas apregoava de forma livre e arbitrária o talvez F**** (no meu blogue não se dizem palavrões), nem sequer posso colocar o Rui Reininho, pois que, esse, de certa forma, através da sua participação no “The Voice Portugal”, acaba por se tornar um avatar dos atavismos que por cá medram. É que isto da “inquietude existencial” e “consciência social”, infelizmente, não é para todos. Todavia, existem outros, é certo. Alguns passam mais ou menos despercebidos, ainda que, de forma notável já tenham elencado premissas similares às que são propostas no novo vídeo-clip dos Mão Morta. Vou-me reportar, a título de exemplo, ao livro “Senhora Vingança” (2011) fruto da imaginação de Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell. Como não tenho a minha cópia à mão, utilizarei uma breve descrição da mesma encontrada no site de uma dessas empresas que comercializam livros, que todavia, não são livrarias. Passo a citar: «Tendo já feito outras incursões pela literatura, esta é a primeira vez que escreve um livro de contos. Em cenários onde a vingança é a rainha, de Paris a Lisboa, entre Vampiros e Políticos, políticos vampiros e vampiros políticos, Fernando Ribeiro exerce um implacável acerto de contas com as mais diversas personagens em dois contos onde a ficção se aproxima perigosamente da realidade.» Infelizmente, os portugueses, lêem muito pouco.  Daí terem a capacidade de alvitrar sobre um vídeo, mas nunca (ou quase nunca) sobre um livro. Se o tivessem feito, teriam percebido (tal como eu percebi, e essa leitura é da minha inteira responsabilidade) que uma das personagens que leva com um “balázio” na testa (terminologia usada nos filmes de gangsters e que no meu entender se ajusta aqui na perfeição), é um ex-primeiro ministro do Partido Socialista que ficará na História desta “nação” como uma das suas mais hediondas manchas, pela sua ausência de escrúpulos em questões de Ética e Moral. Este livro é de 2011, creio, e eu só o li recentemente, pelo que, de facto, não sei qual foi a receptividade do mesmo, ou se gerou algum tipo de polémica.

cropped-maomortaTal, no entanto, não está a acontecer com o novo vídeo dos Mão Morta. Basta ir à página Internet de um qualquer jornal para constatar a veracidade da minha afirmação. Um jornal novo, totalmente online, de seu nome “Observador”, na ânsia de que “vistam a sua camisola” dá-se ao trabalho de citar a opinião de duas figuras que entendo estarem “fora do baralho”, as quais, por consequência não tem qualquer legitimidade para omitirem opinião relativamente a este assunto. Passo a citar a notícia «‘Horas de matar’ é um incentivo à violência ou uma criação artística?», que pode ser consultada integralmente, AQUI.
«Francisco José Viegas, escritor e ex-secretário de Estado da Cultura, defende que não se pode tratar de um incentivo à violência. Até porque “as pessoas são mais inteligentes do que se pensa”, diz ao Observador. Trata-se apenas de “uma tentativa para ter ‘likes’ no facebook”, defende o escritor, acrescentando que o tema não chega a ser uma sátira nem uma crítica política – mas apenas uma “provocação”.»
Ao que eu comento. Provocação digna de “menino mimado” em ruptura com o Partido, foi o comentário do ex-secretário de Estado da Cultura, quando afirmou no seu blogue pessoal “A Origem das Espécies”, num texto intitulado, “No Estado, o absurdo não paga imposto?”, em que pretendeu “apenas avisar” Paulo Núncio, que se algum agente da Autoridade Tributária e Aduaneira o tentar fiscalizar pelo eventual pedido de factura à saída de um estabelecimento de restauração, o vai mandar “tomar no cu”. (Ainda por cima, provocação, que me parece mostrar alguma ignorância do português mais vernacular, ao “tomar” uma variante mais tropical do acto sodomita). O texto em questão pode ser consultado AQUI.
Por seu turno «O cronista Pedro Mexia está mais indeciso: “Do ponto de vista político ou ideológico, o vídeo é lamentável”, diz ao Observador, reiterando que “não se pode aceitar a defesa da violência em democracia”. Mas do ponto de vista artístico “não se pode dizer que apela à violência porque isso seria tornar literal o discurso da arte”. Ou seja, depende do contexto interpretativo.»
Senhor cronista Pedro Mexia, “não se pode aceitar a defesa da violência em democracia”, é certo. Mas é legítimo que, em democracia, uns sejam mais iguais do que outros, e eventualmente, favorecidos nas situações mais prosaicas e comezinhas. Recordo-me de o ter visto num local de cesso restrito e VIP num festival de música no ano transacto. Perdoe-me, mas quem assiste a manifestações artísticas a um confortável quilómetro de distância enquanto beberica indolentemente um aperitivo, não tem, na minha opinião, muita legitimidade para opinar.
Em jeito de conclusão, permitam-me que convoque uma outra figura, esta, muito mais assertiva do que as anteriores. Refiro-me a Vasco Pulido Valente, autor que, na passada sexta-feira na sua crónica semana do jornal Público, intitulada “À Procura do Povo”, fazia o seguinte apelo que passo a transcrever: «Peço, por isso, aos meus compatriotas, de resto notáveis pelo seu sentimentalismo, que de quando em quando tratem bem um político: basta um sorriso, uma palavra, uma palmadinha nas costas. Não custa nada que o povo se mostre um bocadinho às patéticas criaturas que até 25 de Maio estão ansiosas por conversar com ele. Verdade que a conversa é inútil. Mas não custa muito.»
Eu tenho uma outra sugestão. E que tal se começássemos a dar um recado à União Europeia, começando a treinar o “tiro ao alvo”. Para já nos “patos” europeus de segunda categoria, pois que para esta “migração” sazonal, os “cães GRANDES” não arredam pé das suas fortalezas uma vez que se encontram legitimados (e bem alimentados) pelos “Whiskas” em saquetas, com que nós de forma tão diligentemente os aprovisionamos.
Quanto a mim, este vídeo dos Mão Morta chega em muito boa hora. Numa altura em que estamos nas vésperas de mais uma hibernação (através da letargia colectiva que será proporcionada pelo Mundial de Futebol), quanto mais não seja, “Horas de Matar” serve de catarse, não colectiva, é certo, mas que ainda assim, alguma mentes mais inquietas agradecem do fundo do coração.
Obrigado aos Mão Morta!