Há Lodo no Cais III: Cenophobia – breve análise semiótica de alguma da “propaganda” da UE

Jens Eu sou o Jens.
Sedsel Eu sou a Sedl.
Jens Eu e a Sedsel, conhecemo-nos em Paris há três anos. Começou por ser uma amizade, depois evoluiu para uma relação e agora temos uma relação comercial e amorosa.
Sedsel Uma colaboração.
Jens Colaboração.
Sedsel Colaboração criativa. Penso que o design europeu…se tornou muito mais moderno e ser uma marca europeia é sem dúvida uma vantagem. Os estilistas escandinavos estão a atrair muitas atenções.
Jens Esperamos conseguir expandir a marca e conquistar novos mercados na EU e também na Ásia pois é um mercado em crescimento.
Sedsel Talvez um dia Copenhaga seja demasiado pequena.
Jens Enquanto empresário é necessário ser-se realista. Vemos muitos estilistas a dar muitas voltas sem conseguirem nada porque não são realistas, são sempre otimistas (sic). Um bom motivo para votar nas eleições da EU é o facto de podermos. E sendo um empresário, é claramente…um dever.
Sedsel A nossa voz tem de ser ouvida.

«Jens e Sedsel são designers dinamarqueses. Um casal na vida pessoal e na vida profissional. “Um bom motivo para votarmos nas eleições europeias é o facto de podermos”, afirma Jens.
As oitavas eleições europeias realizam-se entre 22 e 25 de maio. Pela primeira vez, de acordo com as novas regras, a presidência da Comissão Europeia depende dos resultados das eleições. Descubra as razões que levam Jens e Sedsel a votar.»

FONTE: Sítio Internet do Parlamento Europeu. (Não, não estou a brincar. Esta narrativa inclassificável está mesmo alojada online! Ora, constatai com os vossos próprios, AQUI.)
(Não, infelizmente, esta não é nenhuma deixa de ”Os Idiotas” do igualmente dinamarquês, Lars von Trier!).

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Algumas considerações que me ocorrem por oportunas, ou, título alternativo, “Há algo de podre no reino da Dinamarca!”

Como sabeis, este título alternativo pertence ao Hamlet de William Shakespeare (Acto I, Cena IV), para ser mais preciso.
Na verdade, esta pequena nação nórdica sempre me fascinou, ainda que até à data seja o único país escandinavo que eu não conheço. Permitam-me que retroceda alguns séculos atrás na História (sim, muitos anos da Conchita e dos Jens & Sedl), para vos dar conta que esta é, de facto, uma nação de pessoas inteligentes. Dar-vos-ei conta de alguns, já de seguida.
Decerto, muitos de vós, tal como eu, já tereis lido de certeza os magníficos contos de Hans Christian Anderson, cuja obra literária é indubitavelmente um dos tesouros mais valiosos da Humanidade. Por seu turno, aqueles que como eu sofrem de “Inquietude Existencial”, também já terão lido as admiráveis páginas de “Temor e Tremor” escritas por Søren Kierkegaard. Outros, mais cinéfilos, porventura, terão em êxtase contemplativo, visionado a “Joana d’Arc” e a “Palavra” de Carl Dreyer. Mas o mais certo é estarem mais familiarizados com o já supra-referido, realizador Lars von Trier. De facto, em meados da década de noventa do século passado Trier, em conjunto com Thomas Vinterberg (outro dinamarquês) redigiu o manifesto conhecido por Dogma 95. Em linhas muito gerais, este manifesto ou “voto de castidade” como ambos a ele se referiram, preconizava um despojamento do espaço cénico. Isto é, que o mesmo deveria ser reduzido ao essencial, através da remoção de todas as adiposidades “barrocas”. Ora, este foi, de facto, um manifesto inteligente, pois a redução da parafernália cénica exige muito mais ao espectador. Isto é, é-lhe exigido que preencha os espaços em branco e, assim, de certa forma, se emancipe da sua condição e, por consequência se torne um agente dinâmico no decurso do processo narrativo. E isso, na minha perspectiva, é uma atitude louvável, onde efectivamente o “menos” de torna “mais”. (Na acepção adoptada por van der Rohe).
Por oposição à premissa inicial do manifesto Dogma 95, em que volto a repetir, é potenciado e desejado um papel mais activo do espectador, já que pode, e deve, socorrer-se da “imaginação criadora”, (sendo que esta nalguns casos até pode ser salvadora), o “filmezinho” do nosso simpático casal de designers – reduzido a um grau bem abaixo de zero (Oh… Barthes, perdoa-me!) -apela a uma passividade de manada, ou seja, a uma anestesia narcotizada digna de um enredo distópico de uma produção cinematográfica classe B.
Passo-me a explicar, tomando por base algumas das considerações da Semiótica, disciplina que preconiza o facto de todos os fenómenos culturais poderem ser estudados como sistemas sígnicos, (onde se encontram inclusas: as Artes visuais, a Música, a Fotografia, o Cinema, Religião, e a Ciência, etc.), sugiro três leituras possíveis para o filme em questão:

1ª Que o facto de se “poder” votar é um “dever”.
Afirmação que na minha opinião não é uma mera tautalogia, mas sim algo bem mais rebuscado, arquitectado maquiavelicamente de forma aparentemente ingénua. “Um bom motivo para votarmos nas eleições europeias é o facto de podermos”, vem fazer com que os estilistas/designers (enquanto classe, apenas alguns, pelo menos assim o espero ) aparentemente, tenha usurpado o lugar que a tradição outorgou aos jogadores de futebol e à “Miss Universo”, através da inocuidade gratuita das mensagens que veiculam.

2ª Que, de facto, algumas instituições utilizam tácticas de guerrilha semiológica para empregar um termo aplicado por Umberto Eco na década de 1970, quando este se referia ao surgimento e legitimação de novas formas de Poder através da Comunicação em detrimento de acções violentas. Isto é, para Umberto Eco, a Informação tornou-se o bem mais precioso, sinónimo de Poder e “objecto de desejo” por parte daqueles que o querem obter (o Poder). Esta é uma ideia dos apocalípticos e não dos integrados, e certo. Assim, os meios de comunicação de massa, (como este vídeo do Youtube, cujo visionamento vos sugiro), não veiculam ideias mas são, intrínsecas na sua verdadeira essência, a Ideologia per se. (Daí se ter contratado dois rostos jovens e bonitos que apenas nos lembram que estes não são tempos de optimismo: Vemos muitos estilistas a dar muitas voltas sem conseguirem nada porque não são realistas, são sempre otimistas (sic).)
Ou seja, fosse qual fosse a profissão dos “beautiful ones”, a mensagem seria sempre a mesma, fazendo com que na verdade, “O meio seja a própria mensagem”.

3ª Uma terceira e última leitura. Vamos de facto, supor que ninguém agiu de forma ingenuamente maquiavélica, ou mal-intencionada (como os vilões das megacorporações que vemos no cinema), mas sim sem saber o que está a fazer (como parecer ser apanágio de imensas instituições na actualidade. Vide o exemplo do governo Turco). Assim, se não se agiu de forma mal-intencionada, creio que esta minha e última leitura será, então, mesmo a mais acertada.
Para explanar a minha opinião vou socorrer-me de um conceito tomado de empréstimo às Artes Visuais. “Horror Vacui” significa “temer o Espaço Vazio”. Numa acepção próxima, prefiro o termo “Cenophobia”, o qua serve para designar o Medo do Vazio. E na verdade acho que é disso mesmo que se trata, quando analisámos a pobreza comunicacional deste vídeo institucional. A Europa, enquanto projecto fracassado pela constante promoção e perpetuação de indivíduos medíocres e oportunistas nos altos, médios e até baixos cargos, encontra-se perante um grande vazio ideológico (leia-se soluções), como teme esse vazio, limita-se a enche-lo de “bibelots” que apenas “papagueiam” (sem ofensa para as aves, que são bem mais merecedoras do meu respeito do que muitas das aves vulgares, infelizmente nada raras, que por aí se pavoneiam) lugares-comuns, na tentativa de se legitimarem por mais um quinquénio (pelo menos os soviéticos eram menos hipócritas).

Em sede própria, bem como em tempo oportuno, já tive a oportunidade de oferecer à Comissão Nacional de Eleições (a título remunerado é óbvio), os meus serviços de consultadoria na área de Comunicação e Imagem. Como nada me disseram, e como actualmente continuo a não auferir de qualquer tipo de rendimento, pelo simples facto de não praticar nenhuma actividade remunerada, vou aqui oferecer uma vez mais os meus serviços. Desta vez à muito nobre (e de certeza impoluta) instituição supra-nacional que dá pelo nome de Parlamento Europeu. (“Oupas”! Pois que, aqui na província consta-se que apesar se ser uma cidade mais cara, ainda assim, os salários em Bruxelas são bem mais elevados.)

Ora, atentai, por gentileza, no vídeo em questão!