Pro et Contra Vasco Graça Moura: um modo de ler a sua vida e obra

(…) L’ego est paradoxalement un organe-obstacle,  parce qu’il tire en sens inverse: il projette vers l’avant ce qu’il retient en arrière, il lance vers le haute ce qu’il précipite vers le bas: car l’ego recule pour mieux bondir et se rétracte sur soi pour mieux s’élancer (…)
Vladimir JankélévitchLe sérieux de l’intention, Traités des vertus, I, Champs Flammarion, p.21.

(…) Vient une heure où l’on doit reconnaître qu’en faisant un livre, on suivait son destin et qu’on n’a peu à peu que le destin de ses propres livres (…)
Gaston BachelardFragments d’une poétique du feu, P.U.F, 1988, p.74.

Herman Henstenburgh ~ Vanitas Still-life, ca. 1700

Herman Henstenburgh  “Vanitas”, circa 1700

Efectivamente, Abril é o mais cruel dos meses. Já o aqui referi, sem pretender manifestar quaisquer laivos de originalidade (como sabeis, por certo, esta afirmação é creditada a T. S. Eliot).

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agónicas raízes com a chuva da Primavera.

Talvez que Abril seja mesmo um período propício a alinhamentos de ordem telúrica e “caosmosização” centrifugada de forças…

A verdade é que o mês, que hoje finda, levou consigo dois importantes vultos das Artes e Letras mundiais, primeiro Gabriel Garcia Marquez, e depois, Vasco Graça Moura. Acerca do primeiro não me manifestei aquando do seu passamento, pois que a leitura de “Cem Anos de Solidão” (a única que li), efectuada em final dos anos 1990, apenas me deixou a penosa recordação de cem lentos dias de obstinada leitura. O “realismo mágico” proveniente de terras sul-americanas, de facto, não é a minha “cena” (perdoa-me,Jodorowsky!). Quanto a Vasco Graça Moura, devo-lhe o conhecimento dos nove círculos de sofrimento localizados dentro da Terra, através da sua magnífica tradução da “Divina Comédia” de Dante. Após a leitura da obra maior do poeta italiano, através desta excelsa edição bilingue, seguiu-se a leitura da “Vita Nuova” (uma outra sua tradução de Dante), leitura que posteriormente, e por linhas travessas, foi desembocar em “Camões e a Divina Proporção”, obra de 1985. Finalmente, os “Sonetos” de Walter Benjamin, constituem o meu derradeiro contacto com o trabalho de tradução do autor nacional. Como fica bem evidenciado, não é nada profundo o meu conhecimento da sua obra. Assim sendo, porque me dou ao trabalho de escrever esta entrada? Bem, porque Vasco Graça Moura não foi apenas um escritor, mas foi, também, um homem da política. Mais à frente, neste mesmo texto, reportar-me-ei novamente a este ponto.
Ainda a propósito deste óbito já li várias afirmações. Uma delas foi a de que “morreu um intelectual renascentista do séc. XXI”. A outra, creditada a Miguel Esteves Cardoso, é a de que V.G. Moura “era, com razão, um intelectual satisfeito”.  Sim, era essa a imagem que ele transmitia. Basta visualizar algumas das fotografias do autor elegantemente vestido, rodeado de livros aprumadamente organizados (o que sempre me suscitou bastante inveja! Não o facto de estar vestido de forma elegante, mas sim, o aprumo da sua biblioteca). Em suma, creio poder afirmar, sem grande controvérsia que o nosso autor era um refinado esteta. E essa é uma rara qualidade, neste sítio, que dá pelo nome de Portugal. Muitos o tentam, mas logo caem no ridículo da ostentação “nouveau riche”, ao lobrigarem todas as diligências possíveis e imaginários no esforço de brincarem aos escritores. Tal desiderato, obviamente, não se aplica ao homem de letras aqui evocado.

gra_aoura011Retrato de Vasco Graça Moura por José Rodrigues em “Caderno de Olhares, textos de V.G. Moura Sobre Alguns Artistas Plásticos”, 1983, edição “O Oiro do Dia”, colecção “Aprendiz de Feiticeiro”. Capa deArmando Alves.

Vasco Graça Moura, infelizmente, ouso afirmar, usufruía do confortável estatuto do “Insider” que lhe foi outorgado desde o seu nascimento. Atentem, por gentileza, na citação seguinte, retirada da versão inglesa da Wikipedia: «Vasco Navarro da Graça Moura, GCSE (3 January 1942 – 27 April 2014) was a Portuguese lawyer, writer, translator and politician, son of Francisco José da Graça Moura and wifeMaria Teresa Amado da Cunha Seixas Navarro de Castro, of Northern Portugal bourgeoisie
Para ilustrar o meu ponto de vista acerca desta “fragilidade” do autor, socorrer-me-ei de Vilfredo Paretoque na sua obra “Les Systèmes Socialistes” (1902), nos dá conta do facto de as classes privilegiadas terem tendência para se tornarem “preguiçosas”, sendo posteriormente suplantadas por homens mais resilientes, fortalecidos pelo enfrentar de condições adversas. Na verdade, as forças atávicas emanadas pelo conforto são inimigas do Novo e do Original.
Mercê deste estatuto de “Insider” parece-me que (e afirmo isto com algum grau de tristeza), daqui a algumas décadas, a obra de Vasco Graça Moura estará totalmente esquecida. Ela é acima de tudo, uma obra que reflecte os interesses de uma contemplativa auto-satisfação, e não o fruto de uma mente inquieta às voltas com o peso do “fardo” existencial, individual e colectivo. O que é, obviamente, legítimo. Mas, infelizmente, tal característica levará a que a sua obra se dilua no infinito e voraz vórtice do esquecimento, local, para onde, de forma impiedosa, é arrastada toda a estetização burguesa. Aliás, a implacabilidade já se começa a manifestar. Vi, ainda bem recentemente em vários locais de venda de livros (hoje existem poucas livrarias dignas desse nome), pilhas dos seus livros a preço de saldo. Os mesmos que agora, e durante um mês, (com preços inflacionados), embelezam catitas montras. Se é verdade que a morte é sempre um acto solitário, também não é menos verdade que é também uma fonte de receitas.

dante18purgatorioO “Purgatório”, segundo Dante Alighieri

No entanto, essa estetização burguesa, como é sabido, não gera paixões. Atente-se nas “manifestações de superfície” nas redes sociais, acerca deste óbito. É nula, ou quase. Tirando os restritos círculos intelectuais, o oblívio avança gradualmente. Ainda assim, Portugal fica bem mais pobre, pois que dos quatro tipos de intelectuais que entre nós habitam, um se extinguiu! Sobram os outros três; o do “ Pretenso Rebelde Mal-humorado”, a quem já não fica bem andar de mota no deserto; o do “Bom Vivant”, que agora lamenta as inconsequências de uma infantilidade mimada, e por último o do “Tagarela que Troca Cachecóis Clubísticos em Telejornais”, e que ainda assim,” fala, fala e fala”…. Quanto aos “pseudo”, estes, são imensos, como as pedras da calçada, portanto, desde que não me façam tropeçar, desejo-lhes uma próspera e longa vida.
Vasco Graça Moura foi, se calhar até mais do que escritor, um político. Infelizmente, numa das menos felizes acepções do termo. Pelo menos assim, entendo o seu “colaboracionismo” com as forças políticas legitimadoras deste cinzentismo que, qual neblina à la John Carpenter, tomou conta desta periferia europeia. Atente-se na homenagem que lhe foi prestada em Janeiro deste ano na Fundação Calouste Gulbenkian, a qual, pode ser visualizada através da página oficial da Presidência da República PortuguesaAQUI.