Há Lodo no Cais II: “ Nova Teoria do Sebastianismo”

«A aprovação da avaliação da Troika a Portugal foi uma inspiração de Nossa Senhora de Fátima.»
CAVACO SILVA, PRESIDENTE DA REPÚBLICA PORTUGUESA, 15 de Maio de 2013

luciasdescription - CópiaFig. 1 – The Being of Fátima, as drawn by Claro Fângio, according to the initial description provided by Lúcia to the Parochial Inquiry

Recordam-se da minha entrada, neste mesmo espaço, datada de 21 de Março passado? Nessa altura, convocando a figura do sociólogo outsider que foi Georges Simmel, a propósito da empresa Transportes de Lisboa e da sua desprezível campanha de apelo à delação, eu formulei a seguinte questão: «o que é que a empresa Transportes de Lisboa sabe acerca dos seus largos milhares de utentes para utilizar de forma displicente e totalitarista esta campanha infame?»
Ora bem, parece-me que encontrei a resposta (não que eu já não a intuísse vai para muitos anos).
Queiram ter então, por gentileza, a bondade de atentarem nas seguintes palavras de Miguel Real (porventura o único dos ensaístas actuais a merecer ser lido de forma bastante mais ampla do que já é), constantes da Apresentação à sua obra mais recente, a “Nova Teoria do Sebastianismo”.

«Ser sebastianista hoje […] significa, não a esperança no indefinido regresso de D. Sebastião, nem acreditar neste como o Messias regenerador da sociedade portuguesa […] mas ter plena consciência de que em Portugal só se atinge um patamar próspero de vida se algo (uma instituição) ou alguém dotado de elemento carismático nos prestar um auxílio que nos retire, por meios extraordinários, do embrutecimento e empobrecimento da vida quotidiana: a subserviência rastejante ao Partido, a cunha do «Senhor Doutor», a crença no resultado do totoloto ou do euromilhões, a promessa a Nossa Senhora de Fátima ou santo congénere…
Esse algo ou alguém, quando negado em Portugal, impele à emigração, forçando o português a buscar no estrangeiro o que, devido às políticas de autofavorecimento das elites, lhe é negado em Portugal.»

nova_teoria_do_sebastianismoMiguel Real fundamenta este seu novo livro na teoria da alucinação, desenvolvida por Fernando Gil em diversas obras. Mais à frente, ainda nesta Apresentação, o autor refere-nos que o mito sebastianista está na origem sociológica e mental dos quatro complexos culturais que, cruzados, constituem a representação geral dos portugueses que historicamente o tem definido como povo: o complexo viriatino (de Viriato; povo humilde mas ousado), o complexo vieirino (de Padre António Vieira; povo que supera as suas próprias forças e dimensão territorial atingindo níveis históricos grandiloquentes), o complexo pombalino (do Marquês de Pombal, povo que  imita acriticamente tudo o que no estrangeiro é nomeado com sucesso, considerando o que provém do exterior superior ao que é nacional) e o complexo canibalista ( um povo embrutecido e fanatizado, mesquinho, invejoso e bárbaro que, desde a segunda metade do século XVI, com alguns intervalos de liberdade, vive na ânsia de agradar a chefes e a instituições numa ortodoxia capaz da denúncia, da prisão, da tortura e da morte do adversário).

Na minha opinião esta análise brilhante responde a muitas das questões que alguns de nós, à noite, levam para o travesseiro.
Vale bem a pena ler, não acham?