Uma Efabulação do Real

A existir, o meu lado mais trickster (por favor, leia-se Lokiano), não se se compadece com a legitimação discursiva de quaisquer tipos de engodos. Quero com isto afirmar que, por norma, nunca valido ou utilizo qualquer apôdo consubstanciado na Mentira. Tal, obviamente, não se fica a dever ao facto de enfermar de qualquer “pré-juízo” irreparavelmente estabelecido por algum dogmático código moral.

blackholesO mote para esta entrada (já o intuíram, de certeza), prende-se com a celebração do dia 1 de Abril, Dia das Mentiras. Como não “sou mais papista que o Papa”, claro que entendo a origem das “plaisanteries” que, ano após ano, contribuem, de forma inequívoca, para que este dia seja tangido por colorações várias e, algumas delas, impregnadas de uma manifesta originalidade. Dia que, de alguma forma, tem vindo a ser utilizado ao longo dos séculos, como válvula de escape e de catarse, numa lógica de reequilíbrio das pulsões que tomam conta do Deserto do Real. Todavia, considero que o abissal número de Inverdades – termo incorrecto, mas utilizado politicamente (e de forma Política) numa torpe tentativa Orwelliana da implementação e validação de um léxico Novi-linguístico de contornos infantilmente distópicos – tomou, irremediavelmente conta deste Sítio à beira-mar plantado. Citando Almada Negreiros, «Isto não é um País, é um sítio. E ainda por cima mal frequentado.» Muito, mas muito mal frequentado, mesmo! Atrevo-me a acrescentar. Assim, vou-me permitir um devaneio.

Vou falar-vos dos Liaison Dangereuse (não, não me refiro à novela epistolar da autoria de Pierre Choderlos de Laclos, publicada pela primeira vez, e em quatro volumes, por Durand Neveu, em 23 de Março de 1782), banda alemã oriunda de Düsseldorf, formada pelos seguintes músicos: Beate Bartel, Chrislo Haas e Krishna Goineau. A banda, infelizmente, apenas esteve activa nos anos de 1981/1982, mas a influência que exerceu sobre outras bandas, na década de 1980, foi notável. Em 1981, eu não já morava na Alemanha, pelo que, e também devido à minha extrema juventude à data (8 anos de idade), eu nunca poderia ter conhecido os Liaison Dangereuse. No entanto, e num universo paralelo, como aquele da série norte-americana “Fringe” talvez isso tenha sido possível. E quiçá (até porque a banda em questão, levando em consideração a época, é certo, é, na minha opinião, a absoluta “epitome of coolness”), nessa dimensão paralela, eu até tenha formado um ensemble de similar orientação sónica e estética? Quem sabe se, nessa outra dimensão eu, realmente, não resido num verdadeiro País, e não num Sítio, que, ainda por cima, é mesmo muito mal frequentado? Rebuscado, não é? Pronto, deixo-me já de devaneios, e convido-vos a atentarem (e aferirem) da versatilidade performativa dos Liaison Dangereuse, ao vivo, e a cores em Manchester (1982). Top, of the Pops😉