Há Lodo no Cais I: “Abra os olhos e combata a fraude!”

Esta série de entradas, que a partir de agora faço tenções de publicar com a regularidade possível, visa dar “voz” a algumas das minhas insatisfações pessoais e eventualmente, profissionais. Até se pode dizer, utilizando uma terminologia popular que, “ando com azia”. De há uns meses a esta parte, ou até talvez nos dois últimos anos, a vida não me tem corrido de feição, pelo que, por vezes, a tentação de “deitar cá para fora”, tal como o coelhinho de uma certa, e determinada publicidade cujos exactos contornos já não me recordo, é demasiado tentadora. Demasiado, mesmo. Todavia, sempre que a “tentação” apareceu, no decurso do período de tempo atrás mencionado, tive o cuidado de a refrear. Não por uma questão de pudor expositivo, mas sim porque sempre intuí a necessidade de salvaguardar a solidez argumentativa de determinada explanação. Acima de tudo, pela necessidade de ter a consciência de que não iria cometer nenhum tipo de injustiça. Ou seja, entendo que a exposição de determinado acontecimento, só deve ser formulada após um período de reflexão (leia-se nojo), que permita a observação e observância dos vários cenários e distintos ângulos de visão necessários. Tal desiderato, como é óbvio, obriga ao sempre difícil exercício de me colocar no lugar do Outro. Mas, na semana passada fui alvo de uma epifania, que me instiga a mudar de atitude.
No Ípsilon, suplemento do jornal Público, na coluna “Estação Meteorológica”, o seu autor escrevia um excelente texto intitulado “ As manifestações de superfície” (abro aqui um parênteses para informar que António Guerreiro é um dos poucos cronistas que actualmente merece a minha atenção, mercê, muito em parte, da minha leitura dos dois excepcionais textos que anteriormente e no mesmo espaço escreveu sobre a cultura de Direita. Este é um dos poucos autores que ainda cultiva a arte de estimular intelectualmente os seus leitores.), este texto datado de 14 de Março, enfatiza que «o principal tropismo das redes sociais (como o Facebook) dos blogues e do jornalismo instantâneo on-line são as manifestações de superfície». Ora, eu não podia estar mais de acordo com a supracitada afirmação. Basta-nos abrir a página do FB, a qualquer hora, para termos exemplos dessas manifestações. São as opiniões “fundamentadas” (e muitas das vezes fundamentalistas) sobre tudo e, sobre todos que mais me causam consternação. São estas opiniões em série, por vezes pejada de abissais truísmos, que eu pretendo e espero vir a conseguir evitar nas entradas de Há Lodo no Cais.
Ainda no mesmo texto, António Guerreiro refere-nos que nestes novos media, tudo é apontado, citado, denunciado e satirizado, não existindo, portanto, tempo para a análise e interpretação (nada que já não soubéssemos via Paul Virilio, Umberto Eco e Jean Baudrillard entre outros). De facto, tudo se tornou “pessoal”, nestas manifestações de superfície que seguem uma frívola lógica “facebookiana”, deixando de fora a possibilidade de análise dos laços impessoais e anónimos da dinâmica social.
No entanto, trata-se de informação obtida através do Facebook, aquela que me impele a redigir este texto. Refiro-me à campanha “Abra os olhos e combata a fraude”, utilizada pela empresa Transportes de Lisboa e que «visa alertar para as consequências da fraude e para os efeitos negativos em que a mesma se traduz». O acesso ao conteúdo integral do contexto desta campanha pode ser acedido AQUI.

open your eyes and smileEntão não é que umas mentes brilhantemente iluminadas se lembraram de evocar um certo tipo de iconografia Orwelliana para as ruas dessa grande e “sofisticada” metrópole que é a nossa capital. (atente-se no requinte linguístico da nomenclatura utilizada no site dos Transportes de Lisboa, que através da utilização de uma semântica em que abundam anglicismos como “claim”, “ teaser” e “buzz”, “(in)felizmente”, ausentes do campo lexical utilizado quotidianamente por mim, modesto penafidelense e nada habituado a palavras “caras”). Na verdade, poderão argumentar os meus caros leitores, e com alguma razão, que não é da minha competência pronunciar-me sobre tal facto, até porque não utilizo os referidos transportes. É verdade. No entanto, e até vir a deixar de ter o cartão de cidadão deste lugar, que não é um país, tal como afirmava Almada Negreiros, entendo que me assiste o direito de pronunciação perante as atitudes mandatadas por alguns “energoumenos” (e aqui, juro, não pretendo concitar o insulto, mas apenas remeter para etimologia da palavra).
Desagrada-me e perturba-me esta campanha de incitação à delação. Lamento, mas faz-me recordar períodos sombrios da Historia, como o período de acção do Tribunal da Santíssima Inquisição, ou o temível ambiente de suspeita que se viveu nos países da Europa de Leste debaixo do jugo soviético. É por demais conhecido o destino de muitas das vítimas de delação, que acabaram os seus dias na bela e “solarenga” tundra siberiana. Certo, devo estar a exagerar, dirão alguns. Então serei mais comedido nas minhas comparações. Remeter-me-ei para a História recente de Portugal. Quando, como muitos de vós, fui exposto ao “normal” e prosaico processo de socialização (via escola, relacionamento interpessoal, familiar, media, etc.), muito ouvi falar do termo” pidesco”. Contaram-me casos de pessoas que, de forma subservientemente diligente iam informar as autoridades acerca das opiniões ou comportamentos de fulano, sicrano ou beltrano. É por demais conhecida a situação a que me refiro. Pois, para os mais incautos e incultos acerca da própria História do seu país, e uma vez que uma das minhas duas categorias profissionais é exactamente a de professor desta disciplina, informo que em 25 de Abril de 1974, existiu uma revolução. Para esta sublevação foram elencados vários motivos, que por uma questão de economia de tempo me escuso de aqui listar. Referirei apenas que uma das premissas era a defesa da Liberdade. E, pergunto eu, como nos podemos sentir livres num país que incita que uns vigiem os comportamentos dos outros? Claro, eu é que devo ser fascista, não é?
«Aqueles que se esquecem do passado estão condenados a repeti-lo», escreveu, e muito bem, George Santayana. Daí eu colocar as seguintes perguntas: será assim tão fácil controlar as massas? Será que existe uma inconsciente vontade de supressão do direito à privacidade e à liberdade individual? Como é possível o cidadão comum submeter-se às directrizes maquiavelicamente arquitectadas e emanadas a partir dos confortáveis gabinetes de alguns tecnocratas cinzentos? Já viram o “Metropolis” do Fritz Lang? Pois façam-me o favor de o ver, ou então rever, e rapidamente entenderão a que é que me estou a referir. Como vêm, e como já afirmei anteriormente, a propósito de outros contextos, considero-me um homem de muitas perguntas e poucas respostas.
Uma coisa é certa. Se a empresa responsável agiu de boa-fé, e se a sua campanha não se encontra imbuída dos princípios negativos que eu atrás referenciei, solicito de imediato as minhas mais profundas desculpas. Mas, numa perspectiva ética e de certa forma até deontológica, esta empresa, não procedeu de forma correcta. E aqui, uma vez que neste momento não possuo uma actividade profissional remunerada, coloco as minhas humildes competências na área, à disposição da empresa, no sentido de prestar assessoria (devidamente remunerada, é claro, na área da Deontologia e Princípios Éticos (Já dei formação na área, e sempre fui avaliado com o grau de excelente).
A verdade é que eu nunca gostei, não gosto e nunca gostarei de delatores (leia-se “queixinhas”). Li, em idade bastante precoce, a obra “O Denunciante” da autoria de Liam O’Flaherty, que me terá moldado o carácter. A trama (se eu fosse o responsável pelo Gabinete de Comunicação e Imagem de alguma empresa sofisticada, utilizaria de certeza o termo “plot”) decorre em Dublin na década de 1920 e resume-se da seguinte forma: em troca de dinheiro, Gypo entrega o seu melhor amigo. Além de ver esse amigo a ser assassinado, ainda passa a ser perseguido pelo IRA. Algo que num mundo perfeito deveria acontecer a qualquer delator. Não, não estou a fazer aqui qualquer tipo de apologia a actos terroristas! Apenas me reporto a uma obra de ficção. Nos dias que correm todo o cuidado é pouco, pois ao que parece, também está na moda arranjarem bodes expiatórios.
Voltando ao assunto em causa: muito me agradaria que a atitude da empresa de transportes aqui visada servisse de modelo a uma outra instituição. Refiro-me à Comissão Nacional de Eleições. Esta poderia, antes das eleições, obviamente, proceder à elaboração de cartazes que “abrissem” os olhos aos eleitores, para que estes possam realmente atentar nas pessoas que irão validar como seus legítimos governantes. Também aqui, eu coloco os meus conhecimentos (de forma remunerada, é claro!) nos domínios do Marketing e Comunicação ao serviço de tão democrática instituição.
Permitam-me então que convoque para esta argumentação um dos meus autores predilectos, Georges Bataille, que um dia escreveu que «os olhos humanos não suportam o Sol nem o coito, nem o cadáver, nem a escuridão, embora com reacções diferentes». Claro que o autor não se referia, com certeza, aos olhos dos povos meridionais, pois que, por estes lados, os olhos de outrem costumam observar com censora satisfação os comportamentos alheios. Não será só por aqui, é certo. Recordam-se da saudosa série de televisão The Twilight Zone ? (eis, na minha opinião, um óptimo exemplo de como a cultura pop pode expor os mecanismos secretos da sociedade). Como não encontrei online o episódio “The Monsters Are Due on Maple Street”, o vigésimo segundo da “season one” (estou a ficar sofisticado), da referida série de culto, transmitido pela primeira vez a 4 de Março de 1960, deixo-vos AQUI a hiperligação para uma versão mais recente desta história curta, mas de triste desfecho, que nos esclarece acerca dos possíveis resultados advindos da instauração de um clima de suspeição.

1984_coverReportando-me novamente, e para finalizar, ao excelente texto “As manifestações de superfície” de António Guerreiro, ocorre-me por pertinente concluir que também as instituições legitimam a tal lógica “facebookiana” de tudo denunciar, sendo que, assim, de facto, reconstruir o sentido da nossa época – e aqui estou mais uma vez em total acordo com o autor – tornou-se mais difícil do que nunca. António Guerreiro convoca, na sua explanação das manifestações da superfície dois sociólogos outsiders do princípio do século XX. Acerca de Siegfried Kracauer não me pronunciarei, pois tendo lido “From Caligari to Hitler: A Psychological History of the German Film, entendo que o mesmo não me serve para ilustrar a opinião que tenho perante a temática aqui analisada. No entanto, o mesmo não acontece com a outra figura “fora do baralho” que é Georges Simmel. No seu brilhante texto “Secret et Societès Secrètes”, o autor afirma que «Toutes les relations entre les hommes reposent, cela va de soi, sur le fait qu’ils savent des choses les uns sur les autres. Le commerçant sait que son partenaire en affair eveu acheter au prix le plus bas et vendre le plus cher possible; le maître sait qu’il peut exiger de son élève une certaine quantité et une certaine qualité de connaisanaces; à l’intérieur de chacune des couchés de la société, l’individu sait en gros quel niveau de culture il peut attendre de tous les autres – et on voit bien que sans savoir-là, les interactions humaines seraint absolutement impossibles». E então, eu faço uma nova pergunta: o que é que a empresa Transportes de Lisboa sabe acerca dos seus largos milhares de utentes para utilizar de forma displicente e totalitarista esta campanha infame? Infelizmente, eu não sei responder. Será que, para compreendermos os mecanismos secretos da sociedade, em primeiro lugar, não deveríamos proceder a uma análise exaustiva das instituições que a compõem? Eu consigo entender as tais “manifestações de superfície”. É que a ordem hierárquica que deve reger qualquer sociedade encontra-se subvertida. E aqui cito uma das Sete Leis Herméticas, reduzida à profanidade superficial que caracteriza as ruínas do nosso mundo: “O que está em cima é como o que está em baixo. E o que está em baixo é como o que está em cima”.

Nota Bene: uma outra opinião, bem interessante por sinal, sobre esta campanha é da autoria de Daniel de Oliveira. Intitula-se”Fraudes na Banca, bufos no autocarro” e pode ser lida AQUI.

Júlio Mendes Rodrigo é professor de História e Técnico Superior de Museologia (sem colocação). Escreve com regularidade no seu blogue pessoal Die Elektrischen Vorspiele, bem como noutras publicações para as quais tem sido gentilmente convidado. O autor, por indómita e expressa vontade, não segue o Acordo Ortográfico adoptado recentemente neste Lugar à beira-mar plantado.