Saint Julian’s L’Acéphale Tattoo

Para além daquilo que sou, encontro um ser que me faz rir porque é sem cabeça, que me enche de angústia porque é feito de inocência e de crime: Possui uma arma de ferro na sua mão esquerda, e chamas semelhantes a um sacré-coeur na sua mão direita. Reúne numa mesma erupção o Nascimento e a Morte. Não é um homem. Não é tampouco um Deus. Ele não é eu mas é mais eu do que eu: o seu ventre é o dédalo em que se desgarrou a si mesmo, que me desgarra com ele e no qual me encontro sendo ele, isto é dizer, monstro.

 – Georges Bataille

Saint Julian's L'Acéphale TattooSaint Julian´s L´Acéphale Tattoo

Made at East Side Ink, 97 Avenue B (between 6&7 St. NYC. NY 10009) on 2nd December 2012
Thank you Jessica Mascitti

(…) [Relativamente a Georges Bataille], de 1936 a 1939 destaca-se o seu papel na revista ACÉPHALE. Neste projecto, fendido numa duplicidade típica da conjugação de pares de opostos, exotérica por um lado (através da actividade editorial e realização de conferências) e esotérica por outro (através da prática de rituais iniciáticos), militavam figuras tutelares das Artes & letras francesas do século XX, como Georges Ambrosino, Pièrre Klossowski e André Masson. Este último responsável pelas esplêndidas ilustrações que adornavam o intempestivo periódico, que apenas nos legou cinco números correspondentes à publicação de quatro revistas.
Posteriormente, associam-se a este esforço editorial nomes como Jean Wahl, Jean Rollin, Jules Monnerot e Roger Caillois, o antropólogo do Sagrado e perscrutador atento de um certo tipo de Humanidade Lúdica, para tomar aqui de empréstimo uma expressão utilizada por Johan Huizinga.
De acordo com alguns testemunhos, poucos, que ficaram registados sob a forma da palavra escrita, esta Sociedade Secreta é-nos apresentada como uma espécie de comunidade críptica, por isso mesmo secreta, onde os seus neófitos eram instruídos acerca da aplicação de novas regras de vida, consciencializados acerca da percepção de uma nova dimensão cíclica do tempo, regulado através da alternância entre períodos de tensão e períodos de descanso. Os primeiros, caracterizados por uma conduta ascética na verdadeira tradição de alguns místicos medievais, e os segundos, pela indulgência, oficiada através da prática de comportamentos excessivos.
L’Acéphale, enquanto sociedade secreta, ter-se-á pautado através do estabelecimento e delineação de linhas mestras, típicas de uma qualquer ordem religiosa medieval. Os seus membros, viam-se a si próprios, como uma espécie de vanguarda cultural nietzscheana, de matriz dionisíaca e por inerência excessiva, incumbida de preparar a re-sacralização de uma sociedade progressivamente Desencantada.
Desencantamento, este, certamente, pelo menos na minha opinião, imposto e postulado pela racionalidade que o Iluminismo do século XVIII nos legou.

O “meuGeorges Bataille, aquele que aqui exalto e convoco, é o mesmo, que, de acordo com Pièrre Klossowski, pretendia criar uma religião sem Deus!

No seu número inaugural, datado de 24 de Junho de 1936, e através da Conjuração Sagrada, Bataille apresenta-nos esse anti-deus, de seu nome, Acéphale.

Júlio Mendes Rodrigo

Excerto da comunicação apresentada no evento:
Acephalia Encyclopaedica: conversas em torno de Georges Bataille
07 Julho 2012, Centro Unesco do PortoPortugal