“(Re)constructing Latinity: National and Transnational Identities of Romance Culture. Interdisciplinary and Transdisciplinary Approaches.”

Latinidades periféricas e minoritárias: a necessidade de um novo paradigma editorial

Proposta conjunta, da responsabilidade de Ana Carvalho e de Júlio Mendes Rodrigo, será apresentada amanhã no âmbito da Conferência Internacional: (Re)construindo a latinidade: identidades nacionais e transnacionais das culturas românicas. Abordagens interdisciplinares e transdisciplinares, a decorrer na Universidade Lucian Blaga, em Sibiu, Roménia.
Selecções dos trabalhos da conferência serão publicadas na revista “Transilvânia” (revista CNCS categoria B, indexada em BDI SCOPUS) e num livro colectivo que será publicado por uma editora de prestígio no exterior.

Programa da Conferência AQUI

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É nossa intenção contribuir para o desenho de um contexto que potencie, renove e reinvente o conceito de latinidade, com particular enfâse nos domínios da produção cultural e artística.
O ponto de partida da nossa reflexão assenta no relacionamento intercultural, estabelecido ao longo de séculos, entre Portugal e a Roménia. Este alicerce basilar possui uma dupla valência. O distanciamento geográfico entre ambos os países, localizados em extremos opostos do continente europeu. A este determinismo geográfico, acresce um outro, que se relaciona intimamente com as ditaduras que governaram ambos os países durante grande parte do século XX. Por consequência, tornaram-se, ambas as nações, países periféricos e deslocalizados dos centros de decisão circunscritos à parte central da Europa, o que contribuiu irremediavelmente para o seu fechamento cultural.
Apesar da existência de uma certa dinâmica no que concerne às relações histórico- culturais Luso-Romenas, amplamente estudadas por Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca – fundador da Sociedade da Língua Portuguesa e membro da Sociedade Romena de Linguística Românica -, autor em que nos alicerçamos para a elaboração de uma sinopse enquadradora deste panorama, podemos afirmar de antemão, que lato sensu, o espectro imanente à produção cultural proveniente das Artes & Letras romenas, esteve afastado da realidade cultural portuguesa.
Em linhas gerais, torna-se evidente constatar que apenas alguns nomes maiores, que encarnam e ilustram o espírito e o génio romenos, foram divulgados em Portugal mercê de uma mediação centro europeia. Referimo-nos aos conhecidos casos, apenas para citar alguns, de autores como Ionesco, Cioran, e até de Mircea Eliade. Divulgados em Portugal através do filtro proporcionado pela língua francesa. Se é verdade que a França possui uma forte tradição no que concerne ao acolhimento de artistas e autores estrangeiros no seu território, independentemente de motivações pessoais ou de índole política, também não é menos verídico que este país, baluarte da cultura de expressão latina durante séculos, viu reduzida a sua importância no que concerne à sua esfera de influência.
A vigência de um paradigma de hegemonia cultural francófono, em vigor até inícios da década de 1980, foi suplantado, posteriormente, pelo modelo anglo-saxónico. Torna-se óbvio constatar desta mudança de paradigma, pelo menos em Portugal, bem como em grande parte do continente europeu. Esta situação advém do facto de as referências culturais nos chegarem, maioritariamente, através da língua inglesa, Idioma simultaneamente uniformizante, e por consequência, que exclui de grande parte do seu léxico, muita da diversidade cultural passível de ser transmitida através da linguagem.
Num contexto que englobe a promoção e eventual renovação do conceito de latinidade, mediante o anteriormente exposto, chegamos às seguintes perguntas: Quais os mecanismos que podem ser desenvolvidos, no sentido de propôr alternativas à uniformização provocados por uma hegemonia cultural anglo- sáxonica? Será possível a reinvenção do conceito da latinidade através do desenvolvimento de obras e projectos culturais assentes na relação entre as latinidades periféricas e minoritárias?
No sentido de encontrar respostas, colocamos como possibilidades para a reconstrução de um panorama que privilegie e valorize a produção cultural e artística, proveniente de áreas de expressão linguística novilatinas, uma série de medidas que contemple, por exemplo, a criação de projectos editoriais transnacionais, com enfoque particular em edições bilingues. No sentido de viabilizar a constituição de zonas operantes, de divulgação das aproximações e semelhanças verificadas entre países e regiões de expressão latina.
Para este enquadramento, alicerçaremos historicamente as nossas hipóteses num quadro de iniciativas desenvolvidas anteriormente, com o intuito de promover e assegurar o plurilinguismo e o multiculturalismo no continente europeu, como por exemplo, os projectos interuniversitários: Galatea, Galanet, EuroComRom e ainda o projecto Lalita.
No sentido de uma ação prática assente nas possibilidades acima elencadas, apresentaremos, de forma mais extensa, o exemplo da editora Coloana Infinita, criada por Ana Carvalho e Júlio Mendes Rodrigo. Esta editora surgiu no seguimento de um contacto estabelecido com a literatura e cultura romenas. Este contacto despertou nos editores o desejo de publicar um texto do poeta Mihail Eminescu. Da obra do autor romeno, foi escolhido o seu poema LuceafărulA Estrela da Manhã. Esta reedição, retoma, volvidas seis décadas, os esforços iniciados pelo Professor Victor Buescu, primeiro Leitor de Romeno na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que em 1950 seleccionou, traduziu e prefaciou, Eminescu para português.
Esta iniciativa (a reedição bilingue deste texto em romeno/português) será um veículo de exposição de possíveis boas práticas a seguir, no que se refere ao contributo para a renovação do conceito de latinidade, a operacionalizar nas latinidades periféricas e minoritárias, enquanto dinâmicas assumidamente contra- corrente.