Umbigo # 46

Por vezes sinto que vivemos dentro de um dos episódios da mítica série de televisiva “ A Quinta Dimensão”. Esta série, dividida em dois períodos (1963 – 1965) e (1995 – 2002), contou, obviamente, com episódios menos felizes. E é precisamente num desses maus episódios que eu coloco a actual realidade nacional.
Em 1998, os Mão Morta lançavam, através da NorteSul, o seu oitavo álbum de originais que tinha o seguinte título: “Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável”.
A banda de Adolfo Luxúria Canibal, de forma mais ou menos presciente, intuía o status quo em que mergulharia a nação, no decurso da próxima década e meia.
Pela minha parte, confesso, vi passar pelo crivo da minha avaliação (sempre negativa, diga-se de passagem), os Guterres, os Barrosos, os Lopes, os Sócrates, os Soares, os Relvas, os Sampaios e os Silvas. Porém, nunca imaginei viver o dia em que um ministro da nação atribuísse um novo antónimo à palavra mentira. Faz-me falta de momento a ajuda de um linguista, mas se não me engano, mentira passou a ser o oposto de incorrecção factual.

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Tem razão, e muita, a revista Umbigo, ao afirmar, no Editorial do número actual, que, viver em Portugal é uma prova de obstáculos diária. No entanto, esta excelente publicação dá-nos conta de que, por cá ainda se vai tendo muita criatividade, mercê da vontade de mentes inquietas em fazer coisas, e em cujas vidas, a palavra “desistir” não faz parte do seu léxico.
Quem, também não desiste é o realizador João Maia. O cineasta tem em mãos a realização do filme “Variações”, que relata parte da vida do nosso muito querido António. Através deste número, os leitores poderão ficar familiarizados com a odisseia monty pythiana, que é concorrer aos programas de financiamento nacionais dentro da área do Cinema.
Poderão ainda ficar a saber: qual o nome do músico responsável pela banda sonora, o porquê da escolha do actor Sérgio Praia para o papel de António Variações, os contornos da dissidência entre o realizador e a produtora Utopia Filmes, ou ainda da possibilidade (não descartável) do realizador transportar este projecto cinematográfico para outra parte do globo.
É, de facto, muito triste viver num país assim. País madrasto (numa acepção quase nataliana), que, em vez de privilegiar os seus jovens talentos, dá primazia, por exemplo à reempregabilidade de velhas glórias no serviço público de TV. (Refiro-me, muito concretamente ao caso da apresentadora do “Quem Quer Ser Milionário”).
Esperemos que, (não que as coisas mudem para melhor, pois apenas irão piorar), projectos como os de João Maia, possam encontrar uma forma de financiamento, ainda que tal implique a deslocação dos mesmos para países mais sérios. Locais onde, não se brinque com a Res publica, e em que as incorrecções factuais sejam passíveis de procedimento judicial.
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O actor Sérgio Praia no papel de António Variações

Para finalizar, apetece-me ainda recomendar-vos a audição do Arranca Corações #8. Esta emissão transmitida pela Rádio NFM, foi para o ar no dia 8 de Novembro de 2012.
Através desse “Pequeno Tratado de uma Economia da Exuberância”, pretendi render a minha homenagem ao grande António Variações.

Podem aceder ao programa AQUI.