Sob o Signo do Trágico: Leituras no Mosteiro

“Fair is foul and foul is fair. Hover through the fog and filthy air.”
(O belo é horrível, o horrível é belo. / Pairemos entre a névoa e o ar impuro.)

As Três Feiticeiras de Macbeth
deus ex machina

Mosteiro de São Bento da Vitória – de 24 Setembro a 17 Dezembro 2013

Na passada quarta-feira (dia 8 de Outubro) fui às Leituras no Mosteiro. A iniciativa organizada pelo Teatro Nacional São João, é coordenada por Nuno M. Cardoso e Paula Braga. Esta nova temporada realiza-se sob a égide do trágico nas suas múltiplas metamorfoses. Este ciclo parte da Grécia Clássica, berço da tragédia e propõe-se revisitar, também, as dramaturgias contemporâneas, “onde o trágico perde (ou recria) as suas conotações clássicas”, para utilizar as próprias palavras da organização.

O ciclo de leituras iniciou-se no passado dia 24 de Setembro, através da leitura de “Electra” de Sófocles. No passado dia 8 – a leitura em que participei, como referi anteriormente – revisitou a peça “Pílades” (1966) da autoria do muito grande Pier Paolo Pasolini. Este texto do autor italiano preserva reminiscências da “Electra” de Sófocles, retomando “As Euménidas” de Ésquilo. Em “Pílades”, Pasolini faz de Orestes um “príncipe socialista” em cujo destino os deuses não têm já qualquer palavra a dizer. A edição nacional utilizada para esta leitura pública foi a da editora Cotovia que conta com tradução de Mário Feliciano e Luiza Neto Jorge.

maria callas e pasolini

Maria Callas e Pier Paolo Pasolini

Para os meus caros leitores que não estejam familiarizados com o empirismo herético do realizador italiano, tomo a liberdade de sugerir a visualização do filme “La Rabbia”, que incluo de seguida nesta entrada. “La Rabbia é um documentário produzido por Gastone Ferranti e conta com a realização a cargo do próprio Pasolini, na primeira parte, e de Giovannino Guaresch, na segunda.


Numa sociedade cujos pilares estão assentes sobre a Economia e subsequente noção de Lucro, a literatura tornou-se uma carreira facilmente explorável, partilhando com o turismo o raro privilégio de não empobrecer com o consumo. Enquanto a faculdade de ler diminui sob a pressão das múltiplas distracções de massa, a proliferação acrítica acaba por obnubilar a literatura. Esta afirmação pode ainda ser complementada pelo triste espectáculo que é o de contemplar as miríades de capas (quase todas iguais) que adornam os escaparates das grandes superfícies bem como de algumas livrarias que venderam “a alma ao Diabo”. Triste paradigma editorial, este, que apenas privilegia a publicação de “ O Códice X” e “ O Segredo Y”.

Assim, iniciativas como as Leituras no Mosteiro, tornam-se essenciais, e até, atrever-me-ei mesmo a dizer vitais, pois são um contributo inequívoco para o combate à mentalidade de “manada” que tomou conta deste país.

Informações detalhadas sobre as Leituras no Mosteiro podem ser obtidas na página do TNSJ.