Queens ov thee Circulating Library: Enquanto o Sr.Bentley Enraba Passarinhos, a CGD enaltece uma espécie de Bücherverbrennung?!

“Não raramente o senhor Bentley veste-se à René Magritte e finge-se belga. De chapéu de coco na tola e chapéu de-chuva dependurado no braço direito (evita que desate em saudações nazistas cada vez que passa por ciganos, pretos, maricas, polícias-sinaleiros e cãezinhos de três patas) passeia na rua com metade de um coco preso à face com um elástico, a gritar: Não tenho cara! Não tenho cara! Ó! A minha cara! Onde está a minha cara?! EU QUERO A MINHA CARA DE VOLTA! SEUS CARALHOS DE MERDA ABAUNILHADA,DEVOLVAM-ME A CARA!”

Excerto da obra “Sr. Bentley, O Enraba-Passarinhos” por Ágata Ramos Simões (um dos livros que iam ser oferecidos nas agências da Caixa)

O Enraba Passarinhos

Solicito a máxima condescendência aos meus caros leitores pelo título atribuído a esta entrada. Mas com a Vossa devida autorização passarei a explicar-me.
Como é do conhecimento de todos vós, hoje é o Dia Mundial do Livro. Até aqui nada de anormal, certo? Ora, não é bem assim…
Estava a lanchar, a meio da tarde do dia de hoje, quando, – para perplexidade minha – (que praticamente se transformava em apoplexia, pois quase me engasgava com o galão que pedi para acompanhar uma bela bola de Berlim), li a seguinte notícia na página 28 do i de hoje; “ Erro de casting. Caixa Geral de Depósitos esteve prestes a distribuir livros eróticos”.
De acordo com o referido jornal diário, a CGD queria oferecer presentes aos clientes no Dia Mundial do Livro, mas à última da hora, percebeu que eram literatura erótica. Ao que parece, e de acordo com a mesma fonte, a ordem terá partido da Direcção de Comunicação e Marca da Caixa Geral de Depósitos, já na passada sexta-feira. Na origem de tal celeuma está o facto de, entre os títulos seleccionados, se encontrarem alguns que potencialmente são passiveis de ferir susceptibilidades.
So far, so good, pois, que me absterei de expressar aqui a minha opinião acerca desta instituição. No entanto, enquanto bibliófilo militante, não posso deixar passar aqui a minha indignação pelo teor do e-mail a que o i terá tido acesso, e do qual passo a transcrever parte; “ Informamos que a acção prevista para o Dia Mundial do Livro se encontra cancelada na medida em que, por lapso, se encontram títulos cujo conteúdo pode ferir a susceptibilidade dos nossos leitores”, e acrescenta o jornal i; “lê-se no e-mail interno, que ordena que os livros sejam destruídos ou encaminhados para reciclagem.” O sublinhado é da minha autoria.
Ora bem, que os senhores não queiram os livros que compraram parece-me muito bem. O que já não me parece bem é que se arvorem em arautos e exemplos da “boa moral” e defensores dos “bons costumes”. Quem conhece um pouco de História, sabe de certeza que as censuras, venham de onde vieram, nunca trazem bons resultados. É de certeza um lugar-comum afirmar que “ Mais cedo, ou mais tarde, onde ardem livros também arderão homens”. Será ainda também lugar-comum afirmar, que alguns destes senhores, defensores de uma democracia (que eu considero inquinada), esquecerão com a maior das facilidades este lapso, para depois de amanhã usufruírem de consciência tranquila de mais um belo feriado de 25 de Abril.
Quanto à Saída de Emergência, a editora que forneceu os livros, através da parceria oficilaizada com a CGD, só tenho a dizer o seguinte; É um dos melhores projectos editoriais nacionais. Como qualquer editora que se preze, não queima os seus livros, ainda que sejam “manuseados” ou que sejam “fins de edição”. Falo com conhecimento de causa, pois em 2009, aquando da atribuição de uma bolsa de Actividade de Educação Extra-Escolar, que me foi concedida pela Direcção Regional de Educação do Norte, a Saída de Emergência, foi uma das editoras que mais apoiou o projecto. Reitero, portanto, o meu sincero agradecimento aos seus coordenadores editoriais.