Laurie Anderson: “Delusion” ou simplesmente “Mãe! Podes explicar-me o porquê do sentido trágico da vida!?”

– Isto é Electrónica não é?
– Não sei! Nunca ouvi nada dela.
– Hum…Há muitas imagens e luzes. Ela foi muito importante nos anos 70!🙂

(Conversa escutada aleatoriamente entre os elementos da audiência presentes na Casa da Música)

Laurie Anderson elucidou-nos, a todos os presentes na Casa da Música, acerca de uma das principais diferenças que separam os homens das mulheres. Segundo ela os homens, quando estão perante algum problema arregaçam as mangas e tentam solucioná-lo. As mulheres por sua vez…podem desatar num ataque de choro, que a “coisa” dilui-se. É aceite com normalidade. Já no caso dos cavalheiros, bem…a coisa é bastante diferente…desconfortável! Por isso, nos confessa que o seu tesouro mais valioso consiste num garrafa que contém as lágrimas de homens, derramadas no decorrer  da última Grande Guerra.

Pela minha parte, confesso que foi com os olhos marejados de lágrimas que assisti ao seu concerto realizado no Domingo passado.

“Delusion”, assenta os seus alicerces em dois aspectos; a morte de sua mãe e a estrutura balzaquiana, uma vez que é constituído por 20 pequenas peças diferentes, todas elas com diferentes formas de percepção que lhe são outorgadas pela incarnação de personagens distintas entre si. Quando completou 63 anos de idade, Laurie Anderson constatou que passou um total de 21 anos, de acordo com as suas contas, nos braços de Morfeu. A partir desse momento começou a registar os seus sonhos, que estão na origem deste seu novo trabalho. Curiosamente, para mim Laurie Anderson e Kafka, andam de mãos dadas, no interior dos limites mais recessos do meu imaginário pessoal. Permitam-me que vos cite uma contextualização do Sonho concebida por Calvin S. Hall e Richard E. Lind na sua obra conjunta: “ Dreams, Life & Literature: a Study of Franz kafka”:

Over the years, dreams have been explained in many ways. They have been regarded as prophecies or omens sent by gods or ancestors. They have been attributed to environmental conditions acting upon the sleeping person or to internal changes within is body. The contents of dreams have been traced to experiences prior to going to sleep or during the proceeding day or the recent past. Their roots have been found in repressed infantile and birth traumas, fetal experiences, and the collective unconscious. In other words, a dream, according to these genetic or causal theories, is the product of antecedent or concomitant conditions.”

Ou seja, e não tendo a veleidade de tentar uma exegese da obra de Laurie Anderson, a figura central desta” Delusion” é a sua mãe que já nos havia surgido em 1982 no seu “O Superman”. Às portas da morte, a sua mãe encetou um discurso que havia de se tornar o cerne deste espectáculo, como conta a artista na primeira pessoa ao jornalista do jornal Público, Gonçalo Frota:

Foi como se alguém chegasse ao microfone e falasse com o mundo, para um público gigantesco, ao mesmo tempo que ia morrendo. Depois a linguagem começou a fragmentar-se e ela começou a falar de animais no tecto, e depois a falar sobre nós. Dava para termos a noção do cérebro dela a desligar-se.

Também é através dum discurso aparentemente fragmentário e desconexo, que se desenrola “Delusion”. Ao longo de cerca de hora e meia, encetamos uma odisseia que se estende desde um qualquer quarto de um hospital de Chicago – talvez o mesmo em que, num sonho meu, visualizei um Mircea Eliade moribundo – onde a sua mãe entra na agonia típica daquele estado a que os americanos tão bem designaram como “delusional”, passando pelo projecto espacial soviético, fruto “alucinado”, que remonta a 150 anos no Tempo, através do sonho visionário de Nikolai Fedorov , que identificou como principal problema da Humanidade o transpor dos limites impostos pela Morte. Através de um processo que não explicou, os filhos deveriam ressuscitar os seus pais, e por sua vez estes os seus. Ao contrário do que escreveu em “Speak my Language”:  – “Daddy Daddy , it was just like you said. Now that the living outnumbered the dead. Here they come. Bright red…”- Fedorov elaborou complexos esquemas planeando aventura especial, que permitisse a evacuação do planeta Terra, dos invólucros mortais de todos aqueles que por aqui já passaram e que na sua totalidade ultrapassam os que ainda não atravessaram para o Outro Plano da Existência. Entre as várias narrativas, em que somos gentilmente (ou outras vezes de forma um pouco mais autoritária) conduzidos – Vocoder Maxima Culpa – a que mais me emocionou foi a de Axel, que chegou aos Estados Unidos (Chicago), via Canadá, com nove anos (casado aos dez e pai aos doze) a falar uma língua parecida com o sueco mas que na verdade era o islandês. Assim o velho sonho do agricultor norte – americano em construir um salão de baile nas ruínas daquele celeiro há muito abandonado, era em tudo similar ao daquele islandês que entusiasmado esperava contar com a presença de toda a vizinhança, tendo apenas algumas dúvidas sobre a comparência dos elfos e gnomos. Aqui entra a confissão que apesar de todos desejarmos ser descendentes de condes e nobres guerreiros, por vezes nada mais somos do que descendestes de pobres pastores incestuosos islandeses que passavam os longos Invernos olhando de forma fixa e vítrea as paredes das suas toscas cabanas. Ficamos elucidados acerca da origem do apelido Anderson. A grande e última questão que Laurie Anderson coloca no final de “Delusion “, dirigida à sua mãe é:

“Alguma vez me amaste verdadeiramente?”

Nunca saberemos a resposta. A acreditar em Robert Smith (The Cure) em “How beautiful you are”, “No one loves another”. Pela minha parte apenas acredito que, o ser humano sofre três mortes:

 A primeira, quando o coração deixa de bater. A segunda, quando é enterrado ou cremado. A terceira, quando o seu nome é proferido pela última vez…

Biblio (disco)grafia sentimental:

Anderson, Laurie – “Bright Red”, Warner Bros, 1994.

Anderson, Laurie –“Homeland” ,Nonesuch Records, 2010.

Anderson, Laurie- “Anéis de Fumo”, Assírio & Alvim, 1997.

Kafka, Franz – “Carta ao pai”, Hiena, s/d

S.Hall, Calvin & Lind, Richard E – ““Dreams, Life & Literature: a Study of Franz kafka”, The University of North Carolina Press, 1970.