Os Sete Mandamentos do ANIMALISMO

Those Who Forget the Past Are Condemned to Repeat itGeorge Santayana

“…Não havia dúvidas agora sobre o que estava acontecendo às caras dos porcos. Os que se encontravam lá fora olhavam do porco para o homem, do homem para o porco e novamente do porco para o homem, mas já era impossível distinguir uns dos outros.”

Será um lugar-comum afirmar que cada indivíduo, em idade adulta, acaba por ser a súmula de tudo aquilo com que se nutriu em tenra idade. Nutrição no sentido da alimentação do seu invólucro físico, mas também de tudo aquilo com que alimentou o seu espírito e intelecto. Perdidos num horizonte distante e brumoso e eventualmente deturpados por uma impulsão inconsciente de retorno a essa Idade Dourada que é a infância, subsistem ainda a memória de muitas leituras possibilitadas pela generosidade de determinado benfeitor de nacionalidade arménia (Գալուստ Սարգիս Կիւլպէնկեան) de Verne a Dickens, de Shakespeare a Stevenson entre muitos outros que agora seria fastidioso proceder à sua enumeração focar-nos-emos hoje em Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu nom de plume, George Orwell.

Nascido na Índia em 1903 é o autor de duas significativas obras: 1984 e Animal Farm.

Combatente das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola, foi sobretudo um opositor feroz dos regimes totalitaristas. Afirmou inclusive na sua obra, Why I Write, que “Todas as linhas de trabalho erudito que escrevi desde 1936 foram escritas, directa ou indirectamente, contra o totalitarismo e em defesa do socialismo democrático, tal como eu o compreendo.”

Editou-se no nosso país em 1986, através da Contexto, a obra “Orwell ou o Horror da Política” de Simon Lewis, sendo esta na minha opinião, uma honesta introdução ao pensamento Orwelliano.

Animal Farm, ou em tradução portuguesa, O Triunfo dos Porcos é uma fábula escrita entre Novembro de 1943 e Fevereiro de 1944.

A obra inicia-se com uma reunião convocada pelo já muito idoso porco Major, com o intuito de partilhar com os outros animais da quinta Manor Farm, propriedade do Sr. Jones, um sonho que havia tido. Em vez disso Major, exorta os outros animais a trabalharem para si próprios e não para nenhum ser humano, responsável exclusivo pelo sofrimento ANIMAL.

Retiravam todos os ovos às galinhas, tiravam o leite às vacas, obrigando-as a aumentar constantemente a sua produção e vendiam ou comiam os porcos.

Major morre, vítima da sua já avançada idade, ficando o resto da comunidade animal a  magicar nas palavras proferidas pelo ancião.

O Sr. Jones consumia álcool em quantidades nada recomendáveis e desprezava o tratamento da quinta e dos seus animais, chegando estes a passar fome, resultando esta situação na revolta por parte dos mesmos e subsequente expulsão do tirano humano.

O nome da Quinta (Manor Farm) passou de ora avante a ser designado por Animal Farm, e passou a ser governada em conjunto por todos os seus habitantes, que rapidamente iniciaram um processo de destruição de todos os vestígios que fizessem lembrar a ocupação humana.

Os Porcos, considerados pelos seus pares como os animais dotados com maior inteligência, iniciaram um novo sistema político. Aprenderam a escrever, daí resultando os Sete Mandamentos do ANIMALISMO

 

1º Tudo o que anda com dois pés é inimigo

2º Tudo o que anda com quatro patas ou tem asas é amigo

3º Nenhum animal usará roupa

4º Nenhum animal dormirá na cama

5º Nenhum animal beberá álcool

6º Nenhum animal matará outro animal

7º Todos os animais são iguais

 

Como a grande maioria dos animais não sabia ler, foi deliberado que os sete mandamentos seriam sistematizados numa máxima de fácil apreensão para todos: “Quatro pernas bom, duas pernas mau”.

Após muito esforço e trabalho árduo a Quinta tornou-se um caso de sucesso e no que concerne à sua gestão e administração.

No entanto, rapidamente a Quinta começa a ver a sua paz bucólica, a ser afectada pelas rivalidades existentes entre dois porcos; Snowball e Napoleão.

Entre várias peripécias, eventualmente, muitas delas já conhecidas por parte dos meus queridos leitores 🙂 , acabamos por assistir à expulsão de Snowball , assumindo Napoleão, o comando dos animais. O Grande Líder, depressa se rodeia de uma guarda pretoriana constituída por cães. O leite começa a desaparecer, a antiga casa do Sr. Jones passa a ser ocupada pelos porcos, passando estes a dormir em camas, a consumir álcool e a andar sobre duas patas!

Gradualmente os sete mandamentos foram sendo modificados mas os animais não percebiam muito bem o que se estava a passar, a não ser os que se lembravam das palavras de Major. Só os que sabiam ler um pouco é que iam percebendo que os mandamentos do ANIMALISMO estavam a ser modificados:

4º Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.

5º Nenhum animal beberá álcool em excesso.

6º Nenhum animal matará outro animal sem motivo.

E um novo mandamento surgiu:

Todo animal trabalhará no mínimo 18 horas por dia, excepto os porcos (porque tinham que pensar).

Entretanto os outros animais trabalhavam arduamente em troca de míseras rações.

O mandamento simplificado que resumia os outros também foi ligeiramente modificado para: Quatro pernas bom, duas pernas melhor!

Napoleão e os outros porcos tinham começado a fazer negócios com os agricultores das outras quintas e, no final do livro, humanos e porcos festejam juntos dentro da casa às escondidas dos outros a produtividade da Quinta dos Animais. Os outros animais, ao espreitarem para dentro de casa já não conseguem distinguir os porcos dos homens.

Por fim, o último mandamento, que havia sido considerado o mais importante, tornou-se único:

 Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros!

O filme que poderá visionar via Youtube, é uma adaptação da obra de Orwell, que nos inícios da década de oitenta, nos tempos da excelente programação e prestação de verdadeiro Serviço Público por parte da Radiotelevisão Portuguesa, passava recorrentemente nos nossos pequenos ecrãs em horário nobre.

Talvez que a leitura da obra ou visionamento da sua adaptação nos ajude a identificar alguns “porquinhos” que constantemente nos surripiam víveres da nossa Quinta (não aquela da TVI), permitindo que dessa forma aumentemos o nosso estado de alerta e capacidade de discernimento nestes tempos que antevêem uma mudança, que esperemos, não seja na continuidade.