SOM E IMAGEM NA ARTE DO SÉCULO XX (Uma relação Simbiótica)

« A pintura de tons, ruídos e odores almeja…o arabesco como a única realidade criada pelo artista na profundeza da sua sensibilidade» –Carlo Carrà

A música e a arte são dois campos de experiência sensorial que foram particularmente tratados como uma unidade por artistas visuais nas duas primeiras décadas do século 20. Nessa altura, os quadros eram frequentemente descritos usando termos musicais, tais como o «som» das cores, acordes de cor, composição, dissonâncias e harmonias. Descobertas cientificas fizeram com que vários artistas reparassem na relação existente entre as ondas de luz emitidas pelas cores e as ondas através das quais o som atravessa o ar. O caminho para a abstracção na Arte abriu um vasto campo que encorajou a visualização de sensações sinestésicas sem referencia a objectos reais.

Em 1913, Carlo Carrà escreveu um manifesto intitulado «A Pintura dos Sons, Ruídos, Odores», no qual aplicou o principio futurista da simultaneidade de diversos estímulos aos sentidos da vista, ouvido e olfacto. Neste mesmo ano, outro expoente máximo do Futurismo italiano, Luigi Russolo, abandonou completamente a pintura (para só a retomar no final da década de 1920). Concentrando os seus interesses no domínio do som, e com os seus intonarumori, ou instrumentos de ruído, inventou o campo da música de ruído, uma significativa contribuição do Futurismo para o desenvolvimento da música do século 20.
Na altura em que Luigi Russolo pintou o seu quadro La musica, em 1911, o pintor/músico tinha mergulhado num domínio no qual as cores e as notas musicais possuíam uma união simbiótica, explicou em 1920, no Jornal Poesia a sua pintura em retrospectiva:
« Com este quadro, o pintor tentou traduzir num quadro sensações melódicas, rítmicas, harmónicas, polifónicas e cromáticas que constituem o mundo das sensações musicais».
A orquestra negra e ondulante, afirmou, traçava o curso da linha melódica, e as máscaras, com as suas expressões vividas representavam acordes harmónicos ou complementares.
Luigi Russolo abordou a música através de uma visualização simbólica da experiência de um acorde/cor e uma personificação dos sons musicais.Com a representação de um piano que se prolonga pela parte inferior do quadro, integrou um elemento técnico e mecânico na sua evocação da música da cor. Instrumentos, cores e sons formam uma união causal.
No entanto, desde o início do século XVIII, foram feitas várias tentativas no sentido de ligar o tocar do piano com os efeitos da luz colorida. O compositor russo Alexander Scriabin planeava incluir precisamente um piano colorido no seu «Prometeu- Um poema de Fogo», apresentado em Moscovo em 1911, embora só no seu espectáculo de Nova Iorque em 1915, é que peça foi acompanhada por um teclado luminoso. A composição de Scriabin foi mencionada no almanaque do Der Blaue Reiter, publicado pelo epónimo grupo de expressionistas alemães em 1912. Wassily Kandisky foi inspirado pela team de Prometeu no seu projecto de palco « O Som Amarelo».
A performance de Scriabin lançou uma série de invenções: O pintor russo Vladimir Baranoff-Rossiné, apresentou aquilo que denominou piano Optofónico em Moscovo, em 1923, e na Alemanha, o húngaro Alexander László demonstrou o seu Sonocromatoscópio.
O Quadro La Musica de Russolo trouxe inadvertidamente a ideia destes instrumentos de Luz e Som.Muitos mais artistas relevantes do século 20, aceitaram esta dualidade ente som e imagem, deixando reflexos evidentes nas suas obras, entre muitos exemplos podemos destacar:
Hermann Hesse, na sua obra« Klingsor’s last summer» fala-nos na relação de um seu auto-retrato de um Farbenkonzerte (Sinfonia de Cores), e «“a tapestry that in spite of its brilliant hues gives a sense of tranquillity and nobility.”
Outro exemplo desta relação simbiótica é o apresentado no filme de 1944 “The Eye and the Ear» realizado por Franciszka e Stefan Themerson na Polónia.
No meu ponto de vista esta obra cinematográfica ilustra de forma muito clara a maneira como a Arte do Século 20, interpretou a relação Som/Imagem.
Walter Ruttman, Derek Jarman, César Monteiro poderiam eventualmente ser estudados como vozes dissonantes desta perspectiva dominante…

Bibliografia:

E.M. de Melo e Castro «Poética dos Meios e Arte High-Tech», Vega 1988
Gene Youngblood « Expanded Cinema»
Sylvia Martin « Futurismo» Taschen
Wire Magazine, issue 262, December 2005
Joscelyn Godwin « Music, Mysticism and Magic», Arkana 1986