Out ov Light Cometh Darkness

THEE FIRST FIVE YEARS AFTER VIOLENT DEATH:

IN MEMORIAM OV JOHN BALANCE 

“Bacchus hath drowned more men than Neptune”

Em finais dos anos 1970 “Sleazy”, aka, Peter Christopherson era uma figura cimeira da nascente subcultura industrial em conjunto com os seus pares Chris Carter, Cosey Fanny Tutti e Genesis P. Orridge, todos eles membros da seminal banda Throbbing Gristle, posteriormente designados pela elite política bem pensante Tatcheriana como “The Wreckers of Civilization”.
Neste período o muito jovem John Balance, pseudónimo de Geff Rushton/ Geoffrey Laurence Burton, nascido em Mansfield no dia 12 de Fevereiro de 1962, entusiasmado e influenciado pela sonoridades emergentes editava por sua própria conta alguns discos, constituindo em parceria com John Goslin a banda embrionária de Coil, Zos Kia.
Balance muda-se de Midlands Town para Londres e enceta contacto com Peter Christopherson acerca da constituição da banda Psychic TV, uma das ramificações dos TG a par do duo Chris and Cosey.
Neste período Balance começa os primeiros contactos com David Tibet, iniciando várias colaborações com o mesmo, por exemplo em “Lucifer over London”, e posteriormente, talvez por intermédio de Tibet, com os “ Death In June.
Iniciam-se então as performances plenas de niilismo jovial, fazendo valer a velha máxima punk “do it by yourself”, em que os instrumentos sonoros rudimentares eram construídos pelo próprio Christopherson. O importante é o som, não a sua proveniência!
O primeiro trabalho a surgir com o nome Coil é “How to Destroy Angels”, um EP de texturas densas, melódico e ao mesmo tempo cubista, que contou com a remistura de Steven Stapleton (Nurse With Wound) para o tema “How to Destroy Angels II”, tema este que integra a banda sonora do filme “Lumb Sister”. O cineasta Derek Jarman cedeu para a capa do disco a imagem “Vine Balance”.
Aquilo que fizeram neste trabalho foi: música ritual para a acumulação de poder e energia sexual masculina. É uma obra que faz alusão à força viril do deus Marte assim como ao poder cabalístico dos números 5 e 17, associados à divindade. É o primeiro de vários trabalhos em que vemos estampado o fascínio pelas matérias do Oculto, Esoterismo e Alquimia.
Logo após a edição do supracitado EP lançam o seu primeiro LP “Scatology”, produzido por Clint Ruin (Foetus), com a participação de Stephen E. Thrower, que dará o seu contributo em vários trabalhos posteriores. O grafismo da edição em vinil é mais recatado, sendo cada exemplar acompanhado de um postal com a ilustração de vários motivos arquitectónicos. Na edição em CD, mais ousada presenteiam-nos com umas nádegas masculinas da autoria de Man Ray.
Neste álbum criam a sua música integrando-a como um elemento de regeneração e purificação da matéria bruta primordial que é o Homem com os seus dejectos e excreções. Os elementos mais repulsivos e repudiados pela sociedade bem como pelo próprio indivíduo que defeca e urina diariamente, sentido um estranho prazer quando o faz, mas que é repudiado num acto auto-culpabilizante. À semelhança dos antigos Gnósticos transformam a merda em ouro. A inspiração para tal trabalho conceptual terá sido influenciada por Salvador Dalí na sua obra “Confissões Inconfessáveis” onde compara o acto de defecar com a figura da galinha dos ovos de ouro. A transformação da secreção humana mais imunda num fluído esplêndido e magnífico, tal qual “opera magna” alquímica; expulsar as fezes e transforma-las em ouro!
Uma magnífica viagem do cinzentismo quotidiano até uma transmutação hierófánica!
Segue-se “Horse Rotorvator”, que teria sido editado como duplo álbum, caso existissem verbas suficientes na altura. As viagens ao México e à Tailândia, a morte do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, bem como uma vez mais o poder sexual, iconográfico e ideológico da Antiga Roma constituem os pontos-chave potenciadores da leitura deste trabalho. Os elementos iconográficos (neo-surrealistas) da capa, assim como o próprio título do álbum nascem nas profundezas da psique de John Balance, que um dia sonha com os Quatro Cavaleiros do Apocalipse; num cenário dantesco desciam das suas montadas degolando-as! As letras encontram-se impregnadas das impressões retiradas da sua viagem ao México, onde à semelhança de outras figuras, Karlheinz Stockausen ou mesmo Antonin Artaud, comprovam que as suas vidas se encontram intimamente ligadas à Morte. Sacrifícios inomináveis, milhares de mortes, mas apesar de tudo isso o mundo contínua.
A esta experiência soma-se a obsessão de Balance pelas mortes causadas pela praga do século (SIDA), o que leva Balance a afirmar “Killed to keep the world turning”, o próprio Derek Jarman sucumbiria desta enfermidade me 1994. Pasolini, assassinado por um “ragazzo di vita”, serve de inspiração para o tema “Ostia (the death of Pasolini)”. Aqui importa enfatizar a influência e inspiração que o cineasta italiano exerceu sobre Balance e Christopherson que com o seu cinema hiper-realista, de tónica sexual e clara tendência homossexual, se tornou um predilecto da comunidade gay.
São muitas e variadas as relações protagonizadas pelos Coil com a Sétima Arte. Referida anteriormente que foi a enorme influência e inspiração proporcionada por Pasolini, observada por exemplo na música “Cathedral in Flames” directamente inspirada em “Saló ou os 120 Dias de Sodoma”.
A amizade com Derek Jarman, (que já datava dos tempos dos TG) levou a uma profícua colaboração, evidenciada através da composição da banda sonora para o filme “The Angelic Conversation”. Os outros filmes de Jarman musicados por Coil são “Journey to Averbury” e o último filme do realizador “Blue”.
Também Clive Barker solicitou a colaboração do grupo para a composição da banda sonora ao filme “Hellraiser”, posteriormente recusada pela companhia produtora que a considerou demasiado extrema e arriscada, mas que ainda assim pode ser adquirida como banda sonora alternativa.
Os anos 90 trazem consigo o nascimento de uma nova fase na carreira dos Coil. É a era de “Love’s Secret Domain”, influenciado provavelmente pelo furor provocado pelas emergentes “ravestechno e pelos sons acid-house. “The Snow”, “Windowpane” ou “Teenage Lightning”, encontram um público mais mainstream. Período em que os Coil passam na MTV! A sua visão apocalíptica do mundo suaviza-se através de um sentimento de vitalidade e de renovação.
A partir deste período muita da sua produção consiste essencialmente na remistura de temas previamente editados. Editam as três partes de “Unnatural History”, bem como “Stolen and Contamined Songs”, disco de remisturas de “Love’s Secret Domain”. Talvez para não verem corrompida a qualidade alcançada até a época devido às expectativas do público, os Coil entram num período de hibernação, iniciando na segunda metade dos anos 1990 uma série de projectos paralelos tais como, Time Machines, Black Light District e Elph.
No limiar do novo milénio iniciam uma nova fase, em que se destaca toda uma série de performances ao vivo por toda a Europa, bem como o início da edição em Março de 1998 de uma série de quatro singles concebidos de forma a coincidir com o equinócio e solstícios desse ano, posteriormente compilados no disco “Moon’s Milk (in four phases)”. Os sons deste período caracterizam-se pela utilização de drones instrumentais e orquestração electro-acústica.
Em Dezembro de 1999 actuaram em Berlim com a encarnação Elph/Zwolf. Passados 16 anos das primeiras performances ao vivo, iniciam um período de cerca de 50 concertos, sendo que vários foram alvo de posterior edição:“Live Four”, “Live Two”, ”Live One”, “And The Ambulance Died in His Arms”, “Selvaggina; Go Back in The Woods” ou “Megalithonomania!”.
Deste período fica registado a sua passagem por Portugal, no dia 21 de Junho de 2003 na Casa da Música no Porto, marcada no entanto pela ausência de John. Persistirá na memória a subida ao palco com os seus trajes surrealistas de coelhos, onde mesclaram misticismo e experimentalismo cru.
Durante todo o seu período de existência o projecto reivindicou várias influências religiosas e espirituais, sendo que o próprio Balance se autoproclamava como um “Born Again Pagan”.
A subcultura relacionada com a música industrial, cedo se mostrou fascinada e impregnada pela influência de várias temáticas ocultistas, ramificando-se em quatro tendências esotéricas:
A primeira que compreende todos os movimentos mágicos contemporâneos, uma segunda influenciada pelo filósofo italiano Julius Evola e pelo movimento Tradicionalista, uma terceira neo-pagã, com as suas variantes xamanistas e Odinistas, e a última de influência satânica na acepção “Laveyana” do termo.
Coil, inclui-se na primeira tendência, em que os temas Crowleianos são uma herança dos anos 1970, geração que celebrou de forma aberta o célebre mago inglês, note-se os trabalhos do cineasta Kenneth Anger, alvo de uma homenagem em Maio deste ano no Museu de Arte Contemporânea de Serralves; os Beatles, através da capa do seu disco “Sergeant Pepper’s Lonely Hearts Club Band”; ou ainda por David Bowie e Led Zeppelin. Outro nome que não pode ficar esquecido é o de Austin Osman Spare, fundador do culto Zos Kia, uma das principais influências da Magia do Caos, fundada por Peter Carrol, personagem que se reclama herdeiro dos Dadaístas, bem como dos filósofos pós modernos Deleuze e Derrida.
O mais conhecido dos grupos “mágicos”, é indiscutivelmente Psychic TV, que durante anos foi o rosto do “Temple of Psychic Youth” (TOPY), ordem mágica fundada por Genesis P. Orridge e Peter Christopherson. P. Orridge faz uma reinterpretação da técnica “cut-up” inventada por William Burroughs, adaptando-a às práticas “mágicas”. Banda de culto, os Psychic TV foram os primeiros a utilizar a voz de Aleister Crowley na música “Enochian Calls” do álbum ao vivo “Descending” de 1984. Foi também o primeiro grupo a integrar fragmentos de cerimónias pagãs nas suas músicas, confira-se o concerto “Those Who do Not…” gravado em 1983 na Islândia, integrando um ritual Asatrú protagonizado por Sveinvjorn Beinteinson.
Também os álbuns “Force the Hand of Chance” (1982) e “Dreams Less Sweat” (1983) misturam experimentação atonal, canções pop e música ritual.
Após a evolução numa vertente mais pop dos PTV, entram em cena a par de Current 93, os Coil que persistirão como uma referência maior e incontornável, acentuando o aspecto mágico de Psychic TV, mas insistindo numa via mais ritualista através da sua música.
John Balance desaparece de forma trágica a 13 de Novembro de 2004, terminando assim uma das bandas mais influentes das últimas décadas. Postumamente foi ainda editado o álbum ao vivo “…And The Ambulance Died in His Arms”, título escolhido pelo próprio Balance.

Peço agora a todos o vosso Silêncio!

Celebremos Thee First Five Years after Violent Death

Júlio Mendes Rodrigo

13 de Novembro de 2009 (Era Vulgaris)

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